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Le Monde mostra como crise política é satirizada no carnaval do Rio de Janeiro

Por Silvano Mendes

A revista M do jornal francês Le Monde desta semana aproveitou o carnaval para mostrar como a festa popular se tornou uma espécie de vitrine de contestação. A correspondente no Brasil conta como escolas de samba fazem alusão à luta contra a corrupção e como os foliões dos blocos carnavalescos usam marchinhas e fantasias para denunciar a crise política brasileira.

A reportagem começa explicando o tema do samba-enredo da São Clemente, que se inspirou em um episódio da história francesa. Com o quase impronunciável título “Onisuáquimalipanse", a escola de samba conta a história de Nicolas Fouquet, um secretário do Tesouro do rei Louis XIV preso por desvio de dinheiro.

“É difícil, diante dessa temática, não ver uma referência à trajetória do estado do Rio de Janeiro, que ontem estava no centro do mundo, recebendo os Jogos Olímpicos e construindo canteiros de obras faraônicos, e que hoje está falido”, comenta Le Monde. “Também é difícil não pensar no governador Sérgio Cabral, suspeito de desvio de dinheiro e corrupção, como um Fouquet do Brasil”, continua o texto, que também compara o personagem francês que chegou a impressionar o rei Louis XIV com seus jantares suntuosos ao ex-bilionário Eike Batista, que no passado ostentava sua riqueza e agora está atrás das grades no presídio de Bangu.

A correspondente do Le Monde entrevistou o historiador Luiz Antonio Simas, que explica que esse tipo de ironia faz parte do carnaval. “Não se trata apenas de uma festa para esquecer de tudo e se alienar. É também o momento em que o povo exerce sua cidadania e aborda os grandes debates de maneira alternativa”, explica o especialista, que é coautor de um dicionário sobre a história social do samba.

Mas a revista francesa aponta que a irreverência é ainda mais presente nos blocos de rua, que a jornalista define como um “carnaval ‘off’ desordenado e espontâneo”. Ela conta como o grupo “Nada Deve Parecer Impossível de Mudar” aborda temas como a luta feminista, a corrupção, a política norte-americana, mas principalmente a situação brasileira. “Ao ritmo de marchinhas divertidas, os foliões gritam ‘Fora Temer’ e gozam do circo político”, relata.

“O Brasil tem essa capacidade de tratar com humor quase todas as situações. Após os atentados de 11 de setembro de 2001, tinha até máscara de Osama Bin Laden nas ruas”, conta ao jornal francês Vagner Fernandes, que dirige o bloco Timoneiros da Viola. A correspondente também cita Tom Zé, autor de uma marchinha sobre a Lava Jato, uma mais ouvidas nas ruas do Rio de Janeiro. “Nós sofremos muito, mas no Brasil sempre foi assim. Sofremos cantando”, finaliza o cantor e compositor nas páginas da revista M do jornal Le Monde.

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