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"Racismo contra índio lateja na sociedade brasileira", diz André Villas-Bôas

Por Elcio Ramalho

#MenosPreconceitoMaisÍndio é o nome da campanha lançada no dia 12 de março pela ONG Instituto Socioambiental (ISA) com o objetivo de sensibilizar os brasileiros a mudarem seu olhar em relação à população indígena no país.

“A questão do preconceito é pouco admitida no Brasil. Tem um racismo contra os índios que lateja em vários setores e segmentos da sociedade brasileira”, afirma André Villas-Bôas, secretário-executivo do ISA, fundado em 1994 com foco nas questões sociais e ambientais.

Além do aspecto sociológico, a ONG pretende com a campanha alertar para o que considera uma ofensiva de restrição dos direitos conquistados pelos índios na Constituição de 1988, sobretudo em relação ao reconhecimento de seus territórios.

“O argumento dos setores que pretendem restringir os direitos dos índios, principalmente do setor agropecuário, está enraizado em um racismo, em um preconceito baseado em uma idealização de que índio só pode ser índio se estiver na floresta e andar pelado. Se não estiver lá, não é mais índio e não tem aqueles direitos assegurados na Constituição”, explica.

Mosaico cultural composto por mais de 250 etnias

A intenção do Instituto também é provocar uma reflexão sobre a importância e valorização do papel das comunidades indígenas, levando também em consideração as dimensões históricas e culturais. “Estamos em um contexto brasileiro em que a discussão de fundo é: qual a importância que se dá a esse patrimônio brasileiro que é a sociodiversidade do país, esse mosaico de povos e populações que têm culturas diferenciadas?”, comenta.

Esse mosaico multicultural é composto também por mais de 250 etnias indígenas que falam mais de 170 línguas, segundo Villas-Bôas. “Eles fazem parte do futuro do país e vários segmentos querem confiná-los ao passado e pensam que seus direitos estão circunscritos em uma situação idealizada, que índio é aquele que está na floresta, anda nu e não fala português. Isso não é verdade”, insiste.

Os índios brasileiros estão acompanhando as evoluções tecnológicas e as transformações da sociedade, o que gera interpretações equivocadas sobre a identidade desses povos, segundo o especialista. “Eles também estão nesse processo e também selecionam aquilo que querem incorporar e adequar aos seus padrões. Isso não os faz perder as identidades indígenas de jeito nenhum”, argumenta, observando que "a visão de que se ele usar relógio, celular e mexer em notebook, não é mais índio, é colonizadora, estreita, reducionista e preconceituosa”.

Etnia Baniwa simboliza o mote da campanha

A primeira campanha institucional criada pela ONG é veiculada nas redes sociais, em tevê, cinema por meio de um vídeo com membros da etnia Baniwa, que vivem no noroeste da Amazônia brasileira, na fronteira com Colômbia e Venezuela.

Um membro da tribo relata em sua língua alguns clichês como isolamento e confinamento na floresta, enquanto imagens mostram grupos ou indivíduos em frente a telas de televisão ou concentrados na frente de computadores ou falando pelo celular. No final, a pergunta que remete ao preconceito apontado pela campanha: “Se tudo mudou e você continua sendo ‘homem branco’, porque a gente não pode mudar e continuar sendo índio?”

“Os Baniwa se identificaram com o mote da campanha no sentido de sofrerem preconceito e discriminação. Nessa questão está embutido o preconceito que pode chegar a uma forma de racismo”, defende Villas Bôas.

A campanha deverá ser veiculada durante todo o ano de 2017 para demonstrar a preocupação permanente com as ameaças que pairam sobre os direitos dos povos indígenas do Brasil.

“Estamos chamando a atenção em um contexto no qual está em discussão no principalmente no Congresso e no executivo uma série de propostas que pretendem mudar a legislação de proteção e reconhecimento dos direitos dos índios. Atualmente no Congresso existe uma CPI, cuja bancada ruralista tem a maior representação, que pretende criar um caldo de discussão para fragilizar os direitos indígenas”, ressalta Villas-Bôas.

“Tem várias coisas acontecendo no cenário político. A campanha quer mostrar para essas pessoas que, quando se depararem com essas discussões, tentarem perceber se não está enraizado nelas um conjunto de preconceitos, e se interesses econômicos escusos não querem abalar os direitos dos povos indígenas”, concluiu.
 

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