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Domício Proença Filho, sobre Capitu: “É muito difícil ser mulher”

Por Silvano Mendes

O presidente da Academia Brasileira de Letras, Domício Proença Filho, está de passagem pela França para o Salão do Livro de Paris, de 24 a 27 de março. Autor de mais de 60 livros, ele apresenta a edição em francês de “Capitu: memórias póstumas” e participa de eventos paralelos sobre a obra de Machado de Assis.

Domício Proença Filho parece ter nascido para escrever. A tal ponto que seus colegas de escola, aos 12 anos de idade, diziam que ele iria acabar na Academia Brasileira de Letras. O que era apenas uma piada se tornou realidade e ele não apenas virou “imortal” em 2006, como também se tornou, em 2015, presidente da instituição.

Mas apesar de sua longa e invejável carreira de professor de literatura, pesquisador e autor de mais de 60 livros – entre eles alguns dedicados à gramática, que ajudaram gerações inteiras a aprender português –, ao ser escolhido para dirigir a Academia, muito se falou sobre o fato dele ser o segundo autor afrodescendente eleito ao cargo. O primeiro foi Machado de Assis, um dos fundadores da entidade, em 1897.

Questionado sobre o assunto, o imortal lembra que durante muito tempo o Brasil teve apenas uma literatura “sobre o negro”, antes de ter uma literatura “do negro”. “Mas muitos dos representantes da etnia começaram a assumir o próprio discurso caracterizador de uma identidade cultural dentro de uma perspectiva multicultural dominante”, principalmente desde os anos 1970. “Isso vem sendo feito gradativamente. Já existe uma poesia e uma prosa significativa a esse respeito e isso tende a crescer”, comenta.

Capitu em francês ganha contornos feministas

O Salão do Livro de Paris coincide com o lançamento na França, pela editora Envolume, de “Capitu: memórias póstumas”. No livro, publicado no Brasil em 1998, o autor conta a história de "Dom Casmurro" do ponto de vista da personagem Capitu, famosa por seus “olhos de cigana oblíqua e dissimulada”. “É muito difícil ser mulher e assumir o discurso feminino”, analisa o escritor. “Eu me arrisquei a tomar uma personagem consagrada, que faz parte do imaginário brasileiro e dar a palavra a ela”, conta, lembrando que a ideia nasceu junto com a primeira leitura do livro, aos 15 anos. “Me apaixonei por ela, como todo adolescente do meu tempo”, relembra.

Mas o que Proença Filho não imaginava é que esse projeto iria ser interpretado como uma espécie de manifesto feminista. Em várias ocasiões durante a apresentação do livro na França, a obra foi elogiada por dar voz à personagem, emblemática mas ofuscada no livro de Machado de Assis.

Ouça a entrevista clicando na foto acima ou assista o vídeo abaixo.

 

 

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