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Vozes femininas do Brasil se destacam no Salão do Livro de Paris

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A escritora carioca Marta Barcellos apresentou seu livro "Antes que Seque" no estande do Brasil no Salão do Livro de Paris, neste sábado 25 de março de 2017. RFI

A paridade ainda não é perfeita, mas a presença feminina é marcante. Entre os cerca de 30 escritores brasileiros que participam do Salão do Livro de Paris, que acontece até segunda-feira (27), dez são mulheres. A escolha revela, segundo os organizadores, uma das tendências da literatura brasileira contemporânea, a de uma "nova dicção de mulheres (…) com um engajamento ético sobre o que está acontecendo pelo mundo”.


As escritoras brasileiras que estão em Paris participam de uma série de atividades na Primavera Literária, evento organizado pelo Universidade Sorbonne, e no estande do Brasil no Livre Paris 2017. Elas são, em sua maioria, jovens autoras, muitas vezes de um livro só, mas já premiadas, como Luisa Geisler, Marta Barcellos, Sheyla Smanioto, ou Socorro Acioli. A grande maioria ainda não foi traduzida para o francês. A única exceção este ano é Socorro Acioli, que lançou no Salão do Livro a tradução de seu romance “A Cabeça de Santo”, editado pela Belleville com o título “Sainte Caboche”.

Mas que vozes femininas brasileiras são essas que ecoam no principal evento literário francês? As autoras ressaltam que essa literatura, fruto da reflexão e vivência da condição da mulher, revela uma pluralidade de dicções, mas reforçam que o movimento é coletivo. A defesa da democracia, a crise brasileira e críticas ao atual governo também permeiam o discurso da maioria dessas escritoras.

A escritora e editora da Nós, Simone Paulino. RFI

“Como tem acontecido do ponto de vista político no Brasil, na literatura as mulheres estão falando juntas e estão sendo mais ouvidas”, afirma a escritora e editora Simone Paulino, uma das organizadoras dessa participação brasileira em Paris. Essa união é necessária para superar “aqueles que tentam, por mecanismos às vezes explícitos ou implícitos, silenciá-las, como é o caso do nosso atual presidente da República”, completa.

Simone Paulino está lançando este ano como autora o romance “Como Clarice Lispector pode mudar sua vida”, pela Büzz. E como editora da Nós, ela publica em Paris a antologia “Escrever Berlim”, com a contribuição de 22 autores (11 homens e 11mulheres) que participaram da Primavera Literária Brasileira e do Salão do Livro da capital francesa no ano passado.

Universalizar temas femininos

A carioca Marta Barcellos venceu os prêmios Sesc, em 2015, e da Biblioteca Nacional, em 2016, com seu primeiro livro de contos “Antes que Seque”, publicado pela Record. Temas centrais do universo feminino, como infertilidade, gravidez e maternidade, atravessam as histórias.

“Eu acho que são temas muito universais e isso é importante. Até hoje, havia a percepção de que esses temas eram femininos e de que a universalidade era dada por temas como guerra, etc. Na verdade, você está falando é de uma escala de valores masculina e a gente tem que mudar isso”, professa Marta Barcellos. Para ela, as autoras estão inventando uma forma de escrever diferente e conseguindo expressar sua visão de mundo com uma “potência literária que está impressionando, ganhando os principais prêmios literários desde 2015 e, de uma certa forma, abalando um pouco o mercado e a lógica que não era de dar visibilidade às mulheres”.

Literatura feminina e marginal

A paulista Sheyla Smanioto foi uma dessas jovens autoras laureada com os principais prêmios do país. Seu primeiro romance “Desesterro”, publicado pela Record, ganhou os prêmios Sesc, o bronze Jabuti e o Machado de Assis da ABL.

A escritora paulista Sheyla Smanioto no estande do Salão do Livro de Paris. RFI

“A voz que eu trago é uma voz de borda, da periferia de São Paulo, é uma voz que está no centro, mas ao mesmo tempo está olhando o centro como estrangeiro. (…) Porque o meu trabalho é um trabalho sobre ser estrangeiro, mas no próprio corpo”, diz a escritora.

A partir da história de seus antepassados, migrantes nordestinos e italianos, Sheyla fala de um mundo em que a mulher e seu corpo são um objeto à disposição do outro e não dela mesma. “A pior violência é aquela que acontece em presença do amor. Sou fascinada por essa noção porque parece que ela é definidora do que é a experiência de ser brasileira”.

A literatura é a chance de ter uma voz e a possibilidade de contestar a situação do Brasil hoje, do recuo do espaço das mulheres e da cultura no atual governo, acredita Sheyla. A literatura como resistência e luta para a construção de “um outro dia para a mulher e para a pessoa que vive na periferia”.