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“Casas do Brasil na Europa são território simbólico e afetivo", diz antropóloga Ceres Brum

Por Elcio Ramalho

Instaladas em algumas das principais cidades europeias para acolher estudantes ou dar assistência a brasileiros no exterior, as Casas do Brasil são o tema de pesquisa da antropóloga gaúcha Ceres Karam Brum, professora e pesquisadora da Universidade Federal de Santa Maria (RS). Suas investigações sugerem que essas residências têm um papel simbólico importante para divulgação da imagem do país e na promoção da cidadania.

Bolsista de um estágio de doutorado em 2003, Ceres foi residente na Casa do Brasil de Paris durante sete meses. A experiência rendeu a publicação do livro “Maison du Brésil - um território brasileiro em Paris”, publicado em 2014 e está na origem de um trabalho mais amplo, de investigação das Casas do Brasil de Madri, Londres, Munique e Lisboa, onde se instalou para aprofundar sua pesquisa.

Segundo a antropóloga, as Casas do Brasil na Europa podem ser entendidas em dois momentos: a partir do projeto modernista do ex-presidente Juscelino Kubistchek de expandir a imagem do Brasil no exterior - como no caso de Paris e Madri - e, em um segundo momento, a partir da década de 1990, como local focado na assistência a imigrantes brasileiros no exterior.

No caso de Paris e Madri, as Casas do Brasil foram instaladas no interior de Cidades Universitárias, criadas no período entre guerra em um contexto de promoção da paz mundial. “Essas Casas têm a ambição de internacionalizar a formação dos pesquisadores e estudantes brasileiros e de promover a cultura brasileira na Europa”, explica a antropóloga.

No entanto, as Casas do Brasil tiveram uma ambição maior, segundo a especialista: “Elas tiveram também a responsabilidade da difusão da imagem do Brasil no exterior por meio da expressão de vários elementos da cultura brasileira como danças, música e exposições”.

“Casas-museus”

As Casas do Brasil de Paris e Madri se tornaram “casas-museus”. A de Paris, uma construção de Lúcio Costa com Le Corbusier, está inscrita no Patrimônio Histórico francês e é de direito público desde 2010. Ela é um exemplo do processo de internacionalização, já que obedece o estatuto imposto pela Cité Universitaire de Paris de promover uma mistura entre residentes brasileiros e estrangeiros.

“A exigência é que 30% dos residentes sejam de outras nacionalidades para fomentar a circulação e intercâmbio de pesquisadores de diferentes países”, constatou.

No entanto, de acordo com a antropóloga, é preciso entender a experiência de viver em uma dessas Casas do Brasil em um contexto que ela chama de “vivência de identidades desterritorializadas”. 

“Essas Casas não podem ser entendidas como território jurídico e sim como território simbólico e afetivo da disseminação da língua e da cultura brasileira. É um lugar onde o Brasil se encontra fora do Brasil. Pessoas de diferentes regiões se encontram e dialogam. Não é um gueto de brasileiros”, garante.

Casas “apartidárias”

Nos anos 1990, a criação das Casas do Brasil obedece a um segundo “fenômeno” observado pela antropóloga. Elas surgem no período pós-impeachment do ex-presidente Fernando Collor de Melo e têm um perfil apartidário, mais voltadas para um trabalho de assistência ao imigrante brasileiro no exterior.

Os locais foram concebidos para oferecer informações desde questões burocráticas, como assistência jurídica para tirar documentos, até atividades de apoio e acompanhamento psicológico, como realizado pelo grupo “Acolhida”, na Casa do Brasil de Lisboa, que completa este ano 25 anos.

Em Munique, a instituição atua ainda na divulgação do bilinguismo, como o ensino do português para crianças de casais binacionais por meio de histórias.

Exercício da cidadania

Seja como residência estudantil ou como local de apoio aos imigrantes, a antropóloga tenta entender por meio de sua pesquisa o uso da denominação “casa” e sua utilização em diferentes contextos e momentos históricos.

“Os resultados dessa pesquisa começam a aparecer. O que fica claro é que essas Casas têm uma dimensão de nação, de acolhida, de um espaço brasileiro que vai além da vivência de identidades estereotipadas. Elas são um espaço da língua brasileira, de um diálogo intercultural entre diferentes estados e lugares onde elas ocupam nessas cidades”, argumenta.

“Elas favorecem o exercício da cidadania, quer de estudantes que se encontram em processo de formação, quer de imigrantes que lá encontram apoio jurídico ou psicológico”, afirma.

  

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