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Crise no Brasil é sem precedentes e impasse será decidido nas ruas, dizem analistas

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Soldados do Exército em frente ao Ministério da Agricultura, em Brasília, em 24 de maio de 2017. REUTERS/Paulo Whitaker

Especialistas ouvidos pela RFI Brasil comentam a gravidade do momento político no Brasil. O cientista político Gaspar Estrada considera a convocação do Exército nesta quarta-feira (24) como um “fato histórico inédito”. E Anthony Pereira, do Brazil Institut do King’s College de Londres, diz nunca ter visto “nada parecido”.


“Há claramente uma perda de legitimidade do governo Michel Temer, um presidente que está realmente encurralado, e, na verdade, desenham-se opções para saber como se chegará a um novo governo. E, sobretudo, com que agenda chegará este novo governo. Penso que esta é, hoje em dia, uma das principais perguntas que são feitas no Brasil”, considera Gaspard Estrada, professor na universidade Sciences Po, em Paris.

No entanto, para ele, a sociedade brasileira tem papel decisivo no desenrolar da crise política brasileira. “Tudo depende de qual vai ser a pressão da sociedade. O impeachment da presidente Dilma Rousseff conseguiu ser levado adiante porque havia pessoas nas ruas, particularmente a classe média conservadora que se mobilizou contra seu governo. Se tivermos de novo uma mobilização, não dessa classe média conservadora, mas agora das classes populares, dos movimentos sociais e dos sindicatos, talvez essa pressão pelas Diretas Já poderá ter um apoio popular e, portanto, um apoio político dentro do Congresso”, avalia.

Violentos confrontos entre polícia e manifestantes nesta quarta-feira em Brasília, 24 de maio de 2017. REUTERS/Adriano Machado

Segundo Gaspar Estrada, o impasse será decidido nas ruas. “Na verdade, o X da questão é que, no final do dia, quem vai decidir se vai virar voto direto ou indireto vai ser o Congresso. Então, o que existe realmente é uma disputa política para saber qual dos dois lados o Congresso vai terminar apoiando”, afirmou.

Racha entre Temer e Maia

Sobre o racha entre o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, e Michel Temer, observado nesta quarta-feira (24) com relação à convocação das Forças Armadas para conter manifestantes em Brasília, o cientista político avalia que houve um “fato histórico”. “Acompanhei o atrito com Maia. Colocar o Exército? Nunca se viu isso em Brasília, desde a Constituição de 88. Foi uma coisa totalmente inédita, as condições de governabilidade no Brasil estão piorando. O quadro está ficando cada vez mais complicado para Temer. A decisão de convocar o Exército foi mais uma prova do caráter frágil deste governo”.

Para a antropóloga Celeste Zicaronne, da Universidade Federal do Espírito Santo, “o país está completamente confuso”. “A política desse governo impede qualquer discussão democrática. A aprovação de medidas é feita na calada da noite. Com a convocação das Forças Armadas, o governo demonstrou não ter nenhuma forma de diálogo com a manifestação”, analisa. “Existe um movimento muito forte de oposição ao governo Temer porque ele prepara um novo modelo de ditadura”, ela explica.

“Tudo é possível”

“No Brasil de hoje, tudo é possível, até se ter dois presidentes destituídos em menos de três anos. Um cenário possível, e uma saída melhor para o Temer seria a cassação da chapa Dilma-Temer pelo Tribunal Superior Eleitoral [no próximo dia 6 de junho], ao invés do impeachment pelo Congresso, porque quem levaria a culpa seria a chapa PT-PMDB, e não ele. Ao mesmo tempo, Temer vem dando sinais muito claros de que deseja permanecer no cargo, não apenas para tentar levar adiante as reformas, mas também porque ele tem medo dos juízes, não só por causa da delação do Joesley [Joesley Batista, dono da JBS], mas também por causa de outras coisas que vêm se acumulando, como as delações da Odebrecht, por exemplo. Sem a imunidade presidencial, ele poderia ser pego pela Justiça”, afirma Estrada.

“Defendo já há algum tempo as eleições diretas, o processo eleitoral”, continua o especialista. “As eleições de 2014 já haviam mostrado um grande racha no país, mas com uma maioria política favorável a Dilma Rousseff. O problema é que Dilma não aplicou o que disse na campanha, então, houve por um lado uma insatisfação na base eleitoral, e, por outro, um boicote claríssimo e evidente da base aliada justamente para poder criar as condições políticas para que ela não estivesse em condições de terminar seu governo”, relata o cientista político.

Presidente Temer durante reunião com ministros e líderes da base aliada no Palácio da Alvorada-Brasília – DF, 21/05/2017 Foto: Marcos Corrêa/PR

“Desde 2014 o Brasil se encontra em clima de guerra política. Eleições presidenciais por si só não resolvem o problema, como vimos em 2014, mas considero que, além das eleições, tem que haver uma reforma constitucional muito abrangente em respeito à política, ao financiamento da política, à economia. Eleições diretas podem dar ao Brasil a legitimidade de uma nova institucionalidade, que deverá sair de um processo de debate político, e isso só será possível se houver campanha”, analisa.

A saída de Temer

“O mais provável é que Temer seja forçado a sair da presidência. A grande questão é como se dará esta transição. O grande empresariado, aqueles que foram os grandes vencedores do impeachment de Dilma Rousseff, este setor conservador deseja manter a agenda das reformas quer defender sua própria pauta e tentará eleições indiretas para continuar a ter controle sobre o governo. Se houver manifestações importantes, não descarto, no entanto, que haja uma verdadeira disputa política pelas eleições diretas”.

“Os riscos são grandes”, avalia Estrada, “porque há claramente sinais de ruptura na essência da Constituição de 1988. Destitui-se uma presidente sem crime de responsabilidade e, ao mesmo tempo, se mantém um presidente que não consegue provar que não fez nada errado, após as delações de Joesley Batista. Além disso, existe uma fragmentação partidária no Congresso, prevista inclusive pela Constituição de 88, mas que agora se torna um fator vicioso devido à promiscuidade entre dinheiro e política”, conclui o analista.

“Nunca vi nada parecido”

O diretor do Brazil Institute do King’s College de Londres, Anthony Pereira”, afirmou “nunca ter visto nada parecido, dentro destas configurações específicas” em toda a sua carreira como cientista político e professor. “Quando era adolescente nos Estados Unidos, vivi o escândalo de Watergate, assisti o vice-presidente Spiro Agnews sair da Casa Branca com a revelação de um escândalo de propinas, e, logo depois, a demissão de Nixon”, lembra-se ele.

“Mas essa combinação de fatores que existe hoje no Brasil, essa investigação anticorrupção massiva, a incrível autonomia do Supremo para tirar políticos do Congresso, como fizeram com Aécio Neves no Senado, tudo isso combinado com a recessão, o impeachment da presidente Dilma Rousseff há apenas nove meses, eu realmente nunca vi nada como isso”, explica Pereira.

“Eu estive no Brasil durante o impeachment do Collor, em 1992, mas havia muita pouca oposição ao impeachment, havia quase uma unanimidade entre os grandes atores políticos [a favor do impeachment]. Esta é realmente uma crise sem precedentes e pode ainda durar um bom momento por causa da ruptura entre setores dominantes e governo sobre o que deveria ser feito”, explica o especialista.

“O Brasil sempre dependeu de capital estrangeiro porque os recursos internos não são suficientes para produzir o capital necessário para investir, por exemplo, em infraestrutura. Um dos riscos, então, é que se essa crise não sair da zona morta, se não houver uma resolução, o capital estrangeiro bata asas do país”, afirma Pereira.

“Ontem foi um dia muito triste porque vimos os confrontos nos protestos se tornarem violentos. Já vimos antes o Exército intervindo durante toda a democracia brasileira, mas não é isso necessariamente o que o povo deseja ver, constitucionalmente não é desejável porque as tropas que estão lidando com os cidadãos não possuem o mesmo código de leis, elas são julgadas em tribunais militares, por exemplo. Existe também um risco de polarização, uma vez que a falta de legitimidade do governo por parte da população aumenta, que as pessoas não confiam mais em soluções institucionais para problemas políticos”, finaliza o cientista da King’s College.