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Disputa hoje no Brasil não é entre forças políticas, é entre mídias, diz Marilena Chauí

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A filósofa e professora universitária Marilena Chauí durante colóquio em Paris em 30 de maio de 2017 RFI

Nesta terça-feira (30), em Paris, no anfiteatro da EHESS- Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais, a filósofa e professora universitária Marilena Chauí fez a conferência inaugural do colóquio internacional "Que direita tomou o poder no Brasil"? Bastante aplaudida, no final da palestra ela concedeu uma entrevista exclusiva à Rádio França Internacional.  


Marilena Chauí considera que a crise política brasileira apresenta hoje dois aspectos muito impressionantes: "O primeiro aspecto é que desde o primeiro golpe, antes do 'golpe no golpe', houve um processo de desinstitucionalização da República, ou seja, uma disputa entre os três Poderes - Executivo, Legislativo e Judiciário - pela hegemonia do processo, a incapacidade de cada um deles de ser o polo hegemônico do processo de golpe, e o fato de cada um interferir nas ações e decisões do outro; isto de tal maneira que os três pilares da República, os três Poderes, com sua autonomia e sua esfera própria de atuação, se perderam", ela constata.

A professora explica que, a isso, pode-se acrescentar o processo de desdemocratização, ou seja, a ideia de que todos os direitos sociais que haviam sido conquistados, e aqueles que haviam sido garantidos, iam ser eliminados, na medida em que se tratava de enxugar o Estado, tornar o Estado mais racional, ou seja, colocar o Estado diretamente a serviço do grande capital, como é a proposta neoliberal, e portanto destruir cada uma das conquistas referentes aos direitos sociais. "Este é o primeiro aspecto da crise: a desinstitucionalização da República e a desdemocratização do país pela retirada dos direitos", observa.

Guerra intermídias

Marilena Chauí destaca que, somado ao primeiro aspecto, agora existe um novo elemento.

"Há uma nova crise, e essa crise ameaça agora o golpe contra o Temer [presidente Michel Temer], portanto, ameaça tirá-lo. Mas agora não se trata de uma disputa entre forças políticas diferentes, como no primeiro golpe [impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff]. Trata-se de uma luta entre mídias. É uma luta que você percebe, um conflito que se estabeleceu, uma disputa que se estabeleceu entre, de um lado, a Rede Globo, a revista Veja, o jornal Globo e o jornal O Estado de São Paulo; e, do outro lado, o jornal A Folha de São Paulo e o grupo da TV Bandeirantes", explica.

O papel do grupo JBS

Mas qual o fator que desencadeou este confronto? "É impossível que a gente saiba qual a origem disso, o que é que quebrou a unidade da mídia, e qual é, nessa quebra da unidade da mídia e da disputa para saber quem vai realizar o segundo golpe, o papel desse gigantesco frigorífico [JBS] que está instalado nos Estados Unidos, espalhado por todos os Estados Unidos, que tem um poder econômico gigantesco, a ponto deles terem feito a delação e viverem tranquilos nos Estados Unidos, livres, soltos e satisfeitos, analisa a professora, ressaltando que "foram eles que produziram esse efeito, foram eles que introduziram esse racha no interior da mídia".

A reflexão da filósofa ultrapassa o raciocínio imediato: "Não é que uma parte da mídia defende o Temer e que a outra ataca o Temer, isso seria o mais óbvio. Não! Qual é a parte da mídia que foi beneficiada pelo JBS e qual é a que não recebeu os benefícios, este é o ponto, é uma questão de dinheiro e de lucro, então, estamos numa crise gigantesca agora por uma disputa nas mídias", conclui a filósofa.