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"Gabriel e a Montanha" encarna complexidade e ambivalência do Brasil, diz Libération

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Matéria sobre o filme "Gabriel e a Montanha", publicada no jornal Libération desta quarta-feira (30). reprodução Libération

O jornal Libération traz uma matéria de página inteira sobre o filme "Gabriel e a Montanha", do diretor Fellipe Barbosa, que estreia nesta quarta-feira (30) nos cinemas franceses. O diário não poupa elogios ao longa e ao cineasta.


O texto explica que o longa reconstitui os últimos 70 dias de vida de Gabriel Buchmann, amigo de infância de Fellipe Barbosa. Em 2009, o jovem de 28 anos, originário de uma família burguesa do Rio de Janeiro, resolveu fazer um tour do mundo. Estudante de economia e prestes a integrar uma universidade americana, o rapaz queria conhecer a pobreza viajando como um simples turista, vivendo experiências junto a populações nativas e traçando seu próprio caminho. "Forçando sua audácia até a inconsciência, Gabriel morre no monte Mulanje, no Malaui, no décimo mês de sua aventura", escreve Libé.

Para o diário, o grande desafio de Fellipe Barbosa foi mostrar o personagem principal, interpretado pelo ator João Pedro Zappa, distanciando-se do idealismo que se criou em torno da figura do jovem aventureiro. "Toda a problemática do filme está aí: como continuar fiel ao amigo morto, conseguindo se distanciar da aventura como nem Gabriel conseguiu fazer?", publica Libération.

Essa fidelidade, reitera o diário, passa pela precisão de uma filmagem que durou tanto tempo quanto a própria viagem do personagem principal. "A meticulosidade da reconstituição se torna quase supersticiosa quando Fellipe Barbosa faz o ator utilizar as verdadeiras roupas de Gabriel. O objetivo é se aproximar o máximo possível daquilo que o viajante viveu, até escalar o monte Kilimanjaro e filmar no topo durante quarenta minutos após os quais não seria razoável permanecer no local", ressalta Libé.

Para o jornal, esse aspecto de documentário não impede uma característica sutil do filme: o cineasta nunca se posiciona contra seu personagem, mas revela suas contradições com pequenos detalhes. Afinal, diz Libération, Gabriel não pode escapar de seu status de estrangeiro ou de "mzungu", como os brancos são chamados no leste da África. "Ele não apenas é traído por sua cor de pele, mas sobretudo por sua vontade extrema de se integrar", publica o diário.

Generosidade e narcisismo

Por isso, o público fica constantemente dividido entre a simpatia e o descontentamento sobre esse jovem cândido que encarna às vezes generosidade e os limites de uma certa postura humanista, e também um comportamento que demonstra a necessidade de uma fuga de si mesmo, onde essa generosidade seria uma forma de narcisismo, diz Libé. "'Gabriel e a Montanha' encarna toda a complexidade e a ambivalência do Brasil, país emergente que, depois de ter pertencido ao Terceiro Mundo, ainda guarda culturalmente um pé na África", reitera.

Em entrevista ao jornal, Fellipe Barbosa confirma essa constatação: "eu quis mostrar Gabriel mais como humano, próximo de nós, do que como um herói altruísta", diz o diretor de 37 anos. Por isso, para Libération, que não poupa elogios ao trabalho do jovem cineasta, Fellipe Barbosa é um dos primeiros na história do cinema brasileiro a conseguir realizar uma autocrítica da burguesia carioca.