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"Temer mostra ausência de ideias na ONU", avalia cientista político

Por Adriana Moysés

O discurso do presidente Michel Temer na abertura da Assembleia Geral da ONU nesta terça-feira (18) retomou pontos tradicionais da política externa brasileira: o pleito de reforma da ONU e de inclusão do Brasil como membro permanente do Conselho de Segurança, a busca por soluções negociadas na resolução de conflitos e menos armas nucleares no planeta.

A fala de Temer foi contida em comparação ao que se ouviu depois da boca do presidente dos Estados Unidos. Donald Trump exacerbou a tensão com o Irã, a Coreia do Norte e a Venezuela.

Na avaliação do cientista político Feliciano de Sá Guimarães, especialista em política externa brasileira e em organizações internacionais, professor do Instituto de Relações Internacionais (IRI) da Universidade de São Paulo (USP), Temer demonstrou novamente ter um comportamento "reativo" aos temas internacionais, em vez de apontar propostas interessantes para o Brasil na área externa. "Não se nota da parte do presidente da República nenhuma ação direta em política externa, o que mostra uma certa ausência de ideias, de slogans e de estratégias de longo prazo", disse Guimarães em entrevista à RFI.

Isolamento do Brasil no cenário internacional

O professor da USP considera que Temer não conseguiu até agora reverter o impacto provocado pelo impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff.

"Os líderes estrangeiros que viajam pela América do Sul não passam pelo Brasil. É o que aconteceu recentemente com primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, e com o vice-presidente dos Estados Unidos. Mas por que isso acontece? O Brasil tem 50% da população, 50% do PIB da região, é central para a economia e para as questões políticas regionais. Esse isolamento é causado por Temer ser um presidente impopular internamente e que sofre sérios questionamentos sobre a forma com que chegou ao poder", observa o especialista.  

Logo depois de Temer discursar na ONU, foi a vez do presidente Donald Trump proferir um discurso extremamente agressivo. Trump chamou a Coreia do Norte de "estado depravado" e ameaçou destruir o país. Disse que o Irã é "uma ditadura corrupta", além de qualificar de "vergonhoso" o acordo nuclear assinado pelo ex-presidente Barack Obama com Teerã. Na visão de Trump, "as nações soberanas e independentes devem ser a base da ordem mundial e da busca pela segurança". O republicano também reclamou da elevada contribuição financeira dos Estados Unidos às Nações Unidas, acusando a organização de ineficácia.

Imprevisibilidade de Trump e do líder norte-coreano levam à escalada

"Trump é um dos presidentes americanos mais imprevisíveis dos últimos 50 anos e isso dificulta porque os Estados Unidos estão no centro do sistema multilateral", destaca Guimarães. Segundo o cientista político, Trump rompe com um dos princípios básicos que norteiam a política externa, que é a questão da credibilidade.

Sobre a Venezuela, o chefe da Casa Branca classificou o governo de Nicolás Maduro de "ditadura socialista inaceitável", e assegurou que quer ajudar o povo venezuelano a restaurar a democracia no país. "Exorto todos os países aqui representados a estar preparados para fazer mais para enfrentar esta crise muito real. Solicitamos uma restauração total da democracia e das liberdades políticas na Venezuela", afirmou.

Linguagem deletéria tem efeito nefasto

"A linguagem de Trump tem um efeito muito deletério. Em diplomacia, falar é agir. Quando ele escolhe esse tipo de frases, isso significa que ele está agindo nesse sentido", explica Guimarães.

O cientista político, ex-pesquisador da Universidade de Yale (EUA), nota que Trump "entra em negociações apostando sempre no aumento da tensão, para chegar num ponto em que um dos dois lados tem de ceder completamente". Nessa lógica, "ele vai aumentando as fichas de aposta, parece um jogador de pôquer, para colocar o outro em uma situação de fragilidade". O problema, de acordo com o especialista, é que o presidente dos Estados Unidos conversa com países distintos, incluindo nações com uma política externa "constante e pragmática, como é o caso do Irã, desde a Revolução de 1979". 

Na avaliação de Guimarães, no caso do conflito entre Estados Uindos e Coreia do Norte, que também tem um líder imprevisível, "é difícil prever o que pode acontecer", conclui o professor do Instituto de Relações Internacionais (IRI) da USP.

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