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Denúncia Brasil Michel Temer Corrupção Câmara dos Deputados

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Se associar a governo Temer virou “péssimo negócio” para deputados

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Michel Termer com o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (18/09/17). Marcos Corrêa/PR

As vitórias de Michel Temer na Câmara dos Deputados podem estar com os dias contados. Apesar de ter obtido apoio dos parlamentares para enterrar a segunda denúncia por corrupção feita pela Procuradoria-Geral da República, em votação realizada nesta quarta-feira (25), o placar apertado demonstra que a margem de manobra do presidente é reduzida.


Analistas políticos ouvidos europeus pela RFI Brasil notam que o futuro das reformas propostas pelo governo, como a da Previdência, está ameaçado. “Eu duvido que Temer terá apoio, porque embora ele consiga barrar as denúncias de corrupção, graças à barganha de cargos e verbas, os políticos também estão pensando nas suas próprias reeleições. Ter uma imagem associada ao governo Temer é um péssimo negócio eleitoral para os deputados e senadores”, afirma Gaspard Estrada, diretor-executivo do Observatório Político da América Latina e do Caribe (Opalc), ligado à Sciences Po, de Paris.

“Ele ainda tem um certo poder, mas está diminuindo e, no fim do mandato, tradicionalmente os governantes têm ainda menos apoio. Por isso, é possível que ele não consiga mais aprovar as reformas”, observa Rolf Rauschenbach, pesquisador do Centro Latino-americano da Universidade de Saint Gallen, da Suíça, e especialista em democracia direta. “O projeto político de Temer para o Brasil é vazio, senão ele não precisaria ‘comprar’ votos para arquivar as denúncias na Câmara. Isso mostra que ele é um político poderoso, influente e que sabe jogar, mas não é um político que tenha um programa e uma visão de como fazer o Brasil avançar”, ressalta Rauschenbach. O pesquisador lembra que o presidente foi obrigado a gastar estimados R$ 32 bilhões para garantir a vitória na Câmara - e, mesmo assim, obteve uma vantagem limitada (251 votos a favor e 233 votos contrários).

Democracia enfraquecida

Para Estrada, o comportamento dos deputados diante da denúncia “é o retrato da política brasileira” hoje: um presidente com um recorde de impopularidade, de apenas 3% de aprovação, é capaz de arquivar as graves acusações de corrupção das quais é alvo graças ao uso da máquina governamental, dos cargos públicos, das verbas e das promessas para os parlamentares. Ele aposta que as mudanças nesse sistema virão apenas após as próximas eleições, em 2018. “Só a eleição vai permitir aprimorar a democracia brasileira. O Brasil só vai conseguir sair da crise com uma ampla reforma política, e não com essas medidas de Michel Temer”, comenta.

Plenário durante votação da denúcia contra Temer. Lula Marques/AGPT

Os especialistas indicam que o resultado da votação desta quarta-feira mostra o quanto a luta contra a corrupção está apenas no começo, apesar dos avanços com a Operação Lava Jato. “Por maior que seja, a Lava Jato não consegue resolver tudo, ainda mais quando o processo investigativo e jurídico tenta curar apenas o passado. O mais importante seria fazer várias reformas institucionais para impedir que esses problemas se repitam no futuro”, destaca Rauschenbach.

O diretor-executivo do Opalc lembra um relatório da Transparência Internacional divulgado em outubro que apontou que, depois da Lava Jato, 78% dos brasileiros acham que a corrupção aumentou. “O grande problema no Brasil é o da credibilidade no funcionamento das instituições. O que estamos vendo é, infelizmente, a perpetuação dos velhos esquemas de corrupção no governo e no Congresso, apesar das investigações da Justiça. Aliás, a Justiça também tem algumas contas a prestar com a sociedade, em especial sobre a transparência da sua atuação.”

Nomes novos

Neste contexto de descrédito nas instituições e nos políticos, os analistas veem com preocupação a aparição de novos candidatos nas eleições do ano que vem. Jair Bolsonaro, João Doria e até o apresentador Luciano Huck podem se beneficiar desse vácuo.

“Excluir a possibilidade de um Luciano Huck em 2018 seria muito corajoso. Emmanuel Macron e Donald Trump são exemplos de que isso é possível”, afirma o especialista suíço. “A rejeição aos políticos tradicionais é um fato, mas acho que os nomes novos não conseguem densidade eleitoral suficiente. Duvido que eles tenham capacidade de construir maioria política, mas é preciso lembrar que temos visto o Brasil ser governado por pessoas incapazes de articular maioria e apresentar um projeto para o país, mas sim agregar interesses”, pondera Estrada.