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Em Paris, Sebastião Salgado mostra o mundo do café e das mulheres

Por Patricia Moribe

Ele é um dos grandes nomes da fotografia mundial e suas imagens são icônicas. Pode ser o formigueiro humano em Serra Pelada, campos de petróleo no Kuwait, um acampamento do MST, os ianomâmi na Amazônia ou entre elefantes na África. Sebastião Salgado é sempre uma imagem em preto e branco, trabalhada em luz e sombra, com uma mensagem.

O fotógrafo brasileiro tem três exposições simultâneas no momento, em Paris. No Salão da Foto, encontro anual de fabricantes, profissionais e amadores da imagem, ele apresenta o trabalho de uma década dedicada ao café, “Perfume de Sonho”. No mesmo espaço de exposições na Porta de Versalhes, a Maison Européene de la Photographie, a MEP, de Paris, abre sua coleção e exibe as imagens que possui do artista brasileiro, uma pequena grande amostra de seu trabalho.

Perfume de um sonho. Seleção de café de alta qualidade para exportação. Plantação de café Allana, Estado de Karnataka, Índia, 2003. © Sebastião Salgado / Amazonas images

Finalmente, na galeria Polka, outro endereço parisiense dedicado à fotografia, a exposição “Mulheres do Mundo” traz um diálogo entre Salgado e outro mestre, o francês Marc Riboud.

Em entrevista exclusiva à RFI Brasil, Salgado fala sobre sua paixão pelo café, pela força das mulheres e pelo preto e branco. Ele começa falando sobre sua ligação com o café:

“Meu pai chegou na minha cidade nos anos 30, transportando café em mula, pela linha da estrada de ferro Vitória-Minas. Depois ele se fixou na região, teve uma pequena indústria de despolpamento de café, preparando o produto para exportação. Então eu estava sempre muito próximo do café. Quando me formei economista, trabalhei para a Organização Internacional do Café.”

A seleção do café. Finca La Hilda nas encostas do vulcão Poas, região de San José, Costa Rica, 2013. © Sebastião Salgado / Amazonas images

A seguir, Sebastião Salgado fala sobre “Perfume de Sonho”:

“Com o convite da empresa italiana Illy para fazer uma história do café, fiquei felicíssimo. E fui embora, viajei durante dez anos, por dez países diferentes. Foi fenomenal. Primeiro, por estar dentro do mundo do café, que é lindo, maravilhoso. Não fiz todos os cafés, fiz o bom café, o Arábica, que é produzido em terras altas – região do Pico das Bandeiras, em Minas, China, Guatemala. Se eu fechasse os olhos e os abrisse de repente teria a sensação de estar em qualquer um desses países ao mesmo tempo".

Em “Mulheres do Mundo”, as mulheres de Salgado estão lado a lado com as do amigo Marc Riboud:

“A Lélia (Wanick Salgado), minha mulher, foi quem editou a exposição. É claro que a metade dos seres humanos que entrevistei foram mulheres. A Lélia não teve problemas para encontrar as fotos, o difícil foi selecionar. Eu venho de um mundo de mulheres, eu tenho sete irmãs, não tenho irmãos. Eu vivia em uma casa com 13 mulheres, com vó, mãe, primas. Fico felicíssimo com esta exposição e também em poder dialogar com o Marc Riboud, grande fotógrafo que morreu há um ano e meio. Além de amigo e fotógrafo, ele e Catherine tiveram uma filha com síndrome de Down, assim como eu e a Lélia temos um filho com síndrome de Down. Então compartilhamos a experiência de conviver e aprender uma grande lição que é a de ter um filho diferente dos outros”.

Salgado fala sobre o empoderamento das mulheres:

“O mundo só pode ser melhor se as mulheres também tomarem a parte que elas merecem, que deviam ter e que nunca tiveram. Se elas entrarem na direção dos países, possivelmente o asfalto em alguns anos não será mais negro. As coisas vão ser diferentes. Possivelmente vamos parar as guerras, vamos mudar tanta coisa...Porque o objetivo da mulher é muito mais tribal, mais humano, mais comunitário que o homem guerreiro, animal isolado, sozinho. Acho que elas participando da sociedade de uma maneira mais ampla, nós teremos uma sociedade mil vezes mais suave, mais doce, mais humanizada”.

Em 1998, Sebastião e Lélia Salgado fundaram o Instituto Terra, no vale do Rio Doce, para iniciar a recuperação de uma área degradada:

“Já plantamos mais de 2,5 milhões de árvores, de mais de 300 espécies diferentes. Hoje estamos trabalhando de maneira muito ampla no vale do Rio Doce, que é imenso, do tamanho de Portugal, com 238 municípios. É o vale mais degradado do Brasil. E ainda por cima tivemos a calamidade que foi o rompimento da barragem (da Samarco), que transformou o rio em uma calha morta, estéril. Um rio assassinado."

Church Gate Station. Mumbai, 1995 © Sebastião Salgado / Amazonas images

Sebastião Salgado só fotografa em preto e branco. E explica o porquê:

“Meu mundo é preto e branco, eu vejo em preto e branco, eu transformo todas essas gamas maravilhosas de cores – e eu acho a cor muito bonita – em gamas maravilhosas de cinza, o preto e branco é uma abstração, é uma forma que eu tenho de sair de um mundo e entrar em outro para poder trabalhar o meu sujeito fotográfico, poder dedicar tempo à dignidade das pessoas. Isso eu consigo em preto e branco, acho que em cores eu não conseguiria.”

Para ouvir a entrevista completa, clique acima em "ouvir".

Estação de florescimento do café, fazenda Dutra, município de São João do Manhuaçú, região de Mata, estado de Minas Gerais, Brasil, 2014 © Sebastião Salgado / Amazonas images

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