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Frei Henri, símbolo das lutas camponesas no Brasil, será homenageado em Paris

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Frei Henri Burin des Roziers (sentado, à esq.), frade dominicano de origem francesa e naturalizado brasileiro atuou como advogado da Comissão Pastoral da Terra (CPT) na região de Xinguara, Pará. Catherine Monnet/ RFI

O octogenário, morto recentemente, será homenageado nessa sexta-feira (1), numa missa no Convento Saint-Jacques, em Paris. A jornalista da Rádio França Internacional Annie Gasnier, que conheceu o religioso no Brasil, relata a luta de Frei Henri pelas populações mais vulneráveis, especialmente no norte do país.  


Annie Gasnier, especial para a redação brasileira da RFI,

Foi a grande decepção do fim da vida dele: não poder viver seus últimos tempos no Brasil, a terra onde ele passou mais de trinta anos de sua vida. O frade dominicano Henri Burin des Roziers foi traído pelo próprio corpo.

Por razões de uma saúde que o debilitava cada dia mais, e para não ser um peso no quotidiano dos seus companheiros de Xinguara, em 2011 ele se viu obrigado a voltar à Paris, onde nascera em 1930.

O frade dominicano Henri Burin des Roziers, em 2005. Foto: Catherine Monnet

Aos 87 anos, em 26 de novembro, Frei Henri morreu no Convento que acolhe os religiosos aposentados, em idade avançada. Ocupava um quarto modesto, com poucos pertences, como seu computador, e um telefone celular, que usava para manter contato com o Brasil e com todos os seus amigos e colegas.

Na cabeça e no coração, o Frei Henri nunca deixou de estar perto do seu país de adoção, do qual tinha a nacionalidade, conversando regularmente com os que ele acompanhou por tanto tempo no Pará, no sul da Amazônia.

Luta pela justiça agrária

Baseado na cidadezinha de Xinguara, ele foi, com muita coragem, advogado da Comissão Pastoral da Terra (CPT), criada pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Ao lado dos camponeses, dos sem-terra e das vítimas do trabalho escravo, ele lutava para que a justiça os protegesse, que cuidasse deles nesse "faroeste" da Amazônia.

Porque no Pará, a luta pela terra é luta de morte. É um dos estados mas violentos do Brasil, que registra dezenas de vítimas por ano, numa batalha sem fim pela dominação da terra, entre ricos fazendeiros e modestos camponeses.

Uma herança histórica da colonização: o latifúndio, a apropriação da terra por poucos privilegiados, é o modelo agrário predominante. Jamais no Brasil houve uma repartição justa da terra. A lei do mais forte se impõe, à bala. Nos tribunais, impera a voz dos poderosos proprietários.

Nessa região selvagem, esquecida e longe do poder, o Frei Henri tentou fazer respeitar a lei e os direitos dos mais fracos, ao custo de muitas ameaças, até de morte. O seu retrato encabeçava a lista dos pistoleiros, era o mais cotado. Mas o religioso nunca quis mostrar preocupação nem medo.

No entanto, ainda me lembro daquele dia de fevereiro de 2005, e da grande tristeza que o abateu quando foi morta, a balas, e a mando de fazendeiros, a Irmã Dorothy Stang, uma americana septuagenária que trabalhava ao lado dos sem-terra em Anapu, na região vizinha.

Mais uma vez, o Frei Henri foi obrigado a aceitar a proteção da Polícia Federal. Sua idade e sua posição na Igreja Católica não o protegiam de nada.

Mas ele não se deixava impressionar. Continuava seu trabalho, indo de um lado para outro na sua pick-up, e até ao tribunal de Belém. Tenaz, conseguiu a condenação de vários mandantes de crimes,  conquistando muito respeito e credibilidade.

Trabalho reconhecido

Nos "anos Lula", com o Partido dos Trabalhadores no poder em Brasília, Frei Henri viu a justiça chegar cada vez mais perto dos conflitos, e juízes chegando ao campo para fazer respeitar a lei.

O juiz federal do trabalho Jonatas dos Santos Andrade se sente como "herdeiro" do advogado da CPT. Ele, que também foi ameaçado de morte, via no frade francês um exemplo, "alguém vindo de longe para defender os sem-voz, sem-esperança, sem-teto, sem-terra, sem-direitos".

O Frei Henri teve um grande papel no reconhecimento do trabalho escravo, que atinge dezenas de trabalhadores rurais. Estima-se que 150.000 pessoas estejam envolvidas no trabalho forçado no Brasil. Ele apelou à OEA (Organizações dos Estados Americanos) e à ONU.

Textos de lei resultaram da participação de Burin de Roziers no Programa Nacional contra a Erradicação do Trabalho escravo. A procuradoria-geral em Brasília lamentou num comunicado, a sua morte, lembrando da "sua dedicação a um trabalho de mais dignidade para os brasileiros".

Para o seu combate, em 2005, ele tinha recebido dos seus colegas brasileiros o Prêmio internacional dos direitos humanos. A CNBB reverenciou "o Frei como um exemplo de pessoa que semeou determinação ao lado dos mas pobres".

O Frei Henri deixou a sua marca no Brasil: uma vitória contra a impunidade que reinava até ele entrar na Amazônia.