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Guilherme Pimentel: "O WhatsApp é uma ferramenta de denúncia da violência policial no Rio"

Por Maria Emilia Alencar

O Rio de Janeiro começa 2018 em situação precária. Um corte significativo no orçamento das Unidades de Polícia Pacificadoras (UPPs) põe o programa em risco de falência. A ação, iniciada há nove anos, foi vista como um importante marco na segurança pública da cidade e, durante alguns anos, diminuiu os índices de violência. No entanto, especialistas apontam que o projeto tinha falhas importantes, entre elas a falta de transformação estrutural da polícia.

"A situação da segurança pública no Rio de Janeiro está piorando bastante, mas ela reflete uma situação que não é só da segurança, é da política e do Estado como um todo," diz Guilherme Pimentel, coordenador do Projeto DefeZap, que denuncia crimes cometidos por policiais na cidade. "Muita gente se iludiu com as UPPs porque a situação do Rio de Janeiro exige de nós um pouco de esperança, a gente quer acreditar em alguma coisa. Mas os moradores de favela e especialistas da sociedade civil em segurança pública já apontavam os problemas de não ouvir a população na hora de formular e implementar o projeto, e de fazer um projeto apenas pautado na polícia indo para os territórios periféricos. Não houve trabalho de base, transformação estrutural da polícia, nem uma transformação cultural das práticas de segurança pública, da relação do Estado com a população, então voltou a ser mais do mesmo," completa.

WhatsApp como ferramenta cidadã

Em meio ao aumento da violência no Rio de Janeiro, à falência do estado, e ao colapso das UPPs, um projeto está tentando ajudar moradores de comunidades cariocas a denunciar a violência policial. O DefeZap, criado em maio de 2016, é uma ferramenta de cidadania que funciona através do aplicativo de mensagens WhatsApp, usado por mais de 90% da população que possui smartphone no Brasil.

"Os níveis de violência são altos, inclusive níveis de violência de Estado. Então quando a gente desenvolveu o DefeZap, a gente pensou justamente em um controle cidadão das forças de segurança," explica Pimentel. "Por que não desenvolver uma ferramenta que potencialize essa cidadania, que aproveite essa força do cidadão de usar o WhasApp, de produzir provas que demonstram a violência ilegal de Estado? Para que isso não só gere escândalo e comoção social, mas também que gere resultados, investigações e controle da força de segurança para termos um serviço melhor," completa.

Os vídeos recebidos pelo aplicativo são encaminhados para que as autoridades competentes investiguem os casos de violência, um método que já gerou resultados. Pimentel explica que mais de 100 investigações já foram abertas a partir de vídeos enviados aos orgãos competentes pelo DefeZap. Ele lembra um em especial, quando policiais da UPP do Alemão invadiram casas de moradores e as transformaram em bases militares em janeiro de 2017.

"Algumas famílias foram impedidas de voltar pra casa, outras foram permitidas a ficar apenas em parte da casa. Um completo absurdo. Os moradores filmaram a situação, nos enviaram, nós fizemos transmissão ao vivo no Facebook e enviamos o link para autoridades. No dia seguinte, uma comitiva de orgãos públicos foi até lá, verificou a veracidade do flagrante e instaurou procedimentos oficiais para tentar reverter essa situação," ele explica.

Segundo Pimentel, as casas foram desocupadas e o comandante da UPP local e o comandante geral de todas as UPPs do Rio de Janeiro estão sendo julgados. Isso porque o Ministério Público verificou que eles não só tinham conhecimento, como estavam agindo ativamente ou se omitindo para garantir que a violação perdurasse.

O jornalista e advogado explica ainda que tanto o caso, quanto o DefeZap tiveram repercussão internacional, já que a France 24, TV que faz parte do grupo France Médias Monde junto com a RFI, fez matérias a respeito. Pimentel, que é um dos chamados "observadores" do canal no Brasil, diz que essa visibilidade internacional é importante, pois aumenta a segurança de seu trabalho e fornece motivação no dia-a-dia.

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