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Crise no Brasil repercute no meio acadêmico europeu, diz pesquisadora portuguesa

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Pesquisadores da Associação dos Brasilianistas na Europa (Abre), em mesa-redonda realizada nesta segunda-feira (22), na Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais (Ehess) em Paris. Daniella Franco/RFI

Brasilianistas europeus se reuniram nesta segunda-feira (22) na Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais (Ehess, sigla em francês) em Paris para discutir o estado da pesquisa sobre o Brasil no Velho Continente. Entre as várias questões discutidas, uma certeza: a crise político-econômica brasileira enfraqueceu a cooperação entre as universidades e a pesquisa na área.


O sentimento é geral, seja entre os brasilianistas na França, na Itália, no Reino Unido e em Portugal. A instabilidade política no Brasil chega ao âmbito acadêmico europeu e castiga deste lado do Atlântico quem estuda o país, qualquer que seja a área: sociologia, antropologia, geografia, história, cultura.

Para a pesquisadora portuguesa Sónia Ferreira, da Universidade Nova de Lisboa e da Universidade Paris 7, não há dúvidas que a crise política no Brasil marca o trabalho dos brasilianistas na Europa. “Vemos que, por falta de financiamento, os colegas do Brasil não podem mais frequentar congressos, que são locais muito importantes para contatos e encontros. Em nível institucional, também se vê que com a crise no Brasil que determinados cursos de pós-graduação ou cátedras têm dificuldade para se manter”, salienta.

A pesquisadora, que é responsável pela comunicação da Associação dos Brasilianistas na Europa (Abre) também percebe a movimentação dos acadêmicos brasileiros na Europa, que “se organizam para dar voz às suas inquietações”. Por isso, segundo ela, “o meio acadêmico europeu também está vivendo de forma intensa a questão da política interna do Brasil”.

A professora e pesquisadora Anaïs Fléchet, da Universidade de Versailles Saint-Quentin-en-Yvelines, destacou, durante a reunião, a dinâmica que havia na pesquisa e os investimentos nos programas de pós-graduação durante o governo de Luiz Inácio Lula da Silva que, segundo ela, resultou na “internacionalização dos pesquisadores brasileiros e na cooperação acadêmica entre a França e o Brasil”.

No entanto, para ela, esse campo de pesquisa está fragilizado atualmente. “Primeiro porque a crise no Brasil hoje enfraquece os programas de cooperação. Além disso, a crise nas universidades francesas também é uma realidade muito forte”, reitera.

Extrema-direita brasileira preocupa acadêmicos europeus

O fortalecimento da extrema-direita e o surgimento de movimentos conservadores no Brasil também não passam despercebidos no Velho Continente, onde são tema de discussão dos pesquisadores. Para os brasilianistas da Associação para a Pesquisa sobre o Brasil na Europa (Arbre), o fenômeno é perigoso porque reflete uma tendência verificada nas Américas e na Europa, diz Juliette Dumont, professora de História do Instituto de Altos Estudos da América Latina (Iheal) de Paris e presidente da Arbre.

“Claro que o que acontece no Brasil tem suas particularidades: a sociedade brasileira não é a sociedade francesa, nem a americana. Mas há um conjunto de processos e dinâmicas acontecendo no Brasil que também estão acontecendo em outras partes do Ocidente. Nos Estados Unidos, na França, em boa parte da Europa, também temos um contexto político-econômico marcado pelo neoliberalismo, privatizações, reformas da previdência e do código de trabalho e, claro, a subida da extrema-direita”, ressalta.

Democratização dos conhecimentos sobre o Brasil

Outro consenso entre os brasilianistas reunidos nesta segunda-feira na Ehess é a necessidade de democratização da pesquisa realizada sobre o Brasil na Europa. Por isso, o objetivo do grupo liderado pela Abre é criar uma rede de pesquisadores, professores e estudantes de todas as disciplinas que trabalham sobre o Brasil na Europa.

Para Sónia Ferreira, é essencial realizar um mapeamento de tudo o que é produzido sobre o Brasil na Europa para ser compartilhado no meio acadêmico. “Desta forma, é possível melhorar as parcerias e intercâmbios de estudantes e pesquisadores, e aumentar os pedidos de financiamento. Construindo uma rede, será possível também tirar do isolamento professores e pesquisadores de seus departamentos e centros de pesquisa, para dividirmos trabalhos e pedidos de financiamento conjuntos, o que é muito valorizado nas universidades da Europa.”

Para a pesquisadora, embora a crise tenha prejudicado a produção sobre as temáticas envolvendo o Brasil, continua sendo grande o interesse de pesquisadores europeus pelo país. Apenas na disciplina de Geopolítica 170 teses de doutorado foram produzidas nos últimos dez anos na França.

“Há uma história muito importante na relação entre o Brasil e muitos países europeus que justifica esse interesse pelo contexto geográfico, político, social, especialmente nesta época contemporânea e globalizada. Sem falar no fato de o Brasil ser uma potência emergente e ter uma presença forte no mosaico político-econômico mundial, embora essa percepção seja cada vez mais colocada em questão atualmente”, finaliza.

O próximo congresso da Abre está previsto para ser realizado em setembro de 2019 em Paris.