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Lula faz discurso com ares de comício em Porto Alegre, mas não cita julgamento

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Lula, ao lado de Dilma, durante discurso em Porto Alegre, poucas horas antes do julgamento. REUTERS/Diego Vara

Durante um discurso na noite desta terça-feira (23) no centro de Porto Alegre, Lula exaltou as conquistas de seus governos. Sem citar diretamente o processo e o julgamento que acontecem no dia seguinte na cidade, o ex-presidente criticou a imprensa brasileira e pediu que a população continue torcendo por ele.


Marcela Donini, de Porto Alegre

"Eu não vou falar do meu processo". Assim o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva abriu seu discurso para milhares de militantes na Esquina Democrática em Porto Alegre. O ex-chefe de Estado retorna à capital que já foi reduto petista na condição de réu. Nesta quarta-feira (24), será julgada a apelação da defesa contra a sentença do juiz Sérgio Moro, que condenou Lula a nove anos e seis meses por corrupção passiva e lavagem de dinheiro no caso do triplex do Guarujá.

Por quase 40 minutos, Lula exaltou as conquistas de seus governos e dos de Dilma Rousseff, que estava ao seu lado no palanque. Do outro lado, estava Manuela D'Ávila, pré-candidata à presidência pelo Partido Comunista do Brasil (PCdoB).

Ao citar a política externa, tema que tomou boa parte do discurso, Lula falou do fortalecimento do Mercosul e disse não se conformar "com o complexo de vira-lata que tomou conta do país", que já foi, nas suas palavras, "protagonista internacional".

Julgado pelo povo

Um pouco antes do discurso do ex-presidente, Dilma e Manuela também manifestaram-se. A comunista ressaltou que Lula deve ser julgado pelo povo, argumento que vem sendo repetido pelos líderes do partido. Mas não só eles – o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e o atual chefe de Estado Michel Temer já afirmaram à imprensa que preferem Lula derrotado nas urnas. O petista lidera na corrida presidencial segundo pesquisas de intenção de voto.

Para Lula, seus advogados já provaram sua inocência. "Não vou falar da justiça. Acredito que aqueles que vão votar deverão se ater aos autos do processo e não às convicções políticas de cada um. Também porque eu tenho vocês, com quem convivo há mais de 40 anos e sabem da minha inocência", afirmou, direcionando-se para a militância.

Críticas aos jornalistas

Além de acusar o atual governo e "seus desmontes" na educação, tecnologia e outras áreas, Lula também criticou fortemente a imprensa brasileira e disse ter "pena dos jornalistas que trabalham no Brasil, porque saem para cobrir as matérias com uma ordem do editor: se não fizer, é mandado embora", completou.

“Eu duvido que os jornalistas que escrevem mentiras a meu respeito durmam todo dia com a consciência tranquila que eu durmo. Porque eu sei que não cometi crime, mas eles sabem que estão mentindo. Eu duvido que neste país tenha um magistrado mais honesto do que eu”, alfinetou.

Segundo os organizadores, cerca de 70 mil pessoas se reuniram para apoiar Lula durante discurso em Porto Alegre. REUTERS/Paulo Whitaker

Beneficiários de programas sociais marcaram presença

Segundo a organização do evento, cerca de 70 mil pessoas estavam presentes para ouvir Lula. Entre elas havia tanto antigos eleitores do Partido dos Trabalhadores quanto jovens que se diziam agradecidos por iniciativas como o Programa Universidade Para Todos (ProUni). Era o caso de Louise Leiria, 20 anos, estudante de História na Universidade Luterana do Brasil e beneficiada pela bolsa federal. "Tudo que a minha família já conseguiu foi por causa do PT", disse à RFI.

Lula encerrou o discurso em tom de comício eleitoral, dizendo que tem "72 anos de idade, energia de 30 e tesão de 20 para conquistar os direitos do povo brasileiro". Seu futuro político começa a ser desenhado nesta quarta-feira. Se for condenado nesse processo, cabem recursos. Além disso, sua candidatura poderá ser impugnada pelo Tribunal Superior Eleitoral, onde também há recursos a seu favor. Difícil afirmar o que vai acontecer até outubro. O fato é que a campanha já começou.