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Desequilíbrios ecológicos podem levar febre amarela de volta às cidades

Por Lúcia Müzell

Calor e chuva – é disso que os mosquitos transmissores de vírus como a febre amarela, a dengue ou o zika mais gostam para se reproduzir. Com as mudanças climáticas e o aquecimento do planeta, as condições favoráveis tendem a melhorar no Brasil para a multiplicação do Aedes aegypti e o Aedes albopictus, os principais vetores das doenças virais no meio urbano. Além disso, ações humanas como o desmatamento das florestas perturbaram o equilíbrio ecológico da cadeia que ocasiona na contaminação humana pela doença. O resultado é que, 70 anos depois da erradicação da febre amarela nas cidades brasileiras, a doença pode sair das áreas rurais e de florestas e retornar a metrópoles como o Rio de Janeiro.

O risco, considerado “muito grave”, é um alerta de um dos órgãos de pesquisa mais respeitados do mundo, o Instituto Pasteur, da França. Anna-Bella Failloux, diretora de pesquisas em virologia, vê com preocupação a ocorrência da doença em localidades muito próximas das cidades, além dos casos de mortes de pessoas que não estiveram em áreas de risco.

“Isso está relacionado a uma perturbação ecológica. O vírus circulava nas populações de macacos e mosquitos que não picam o homem. Mas um dia esse equilíbrio foi perturbado e, em vez de picar o macaco, o mosquito passou a picar o homem”, afirma a especialista. “Essa perturbação fez com que, hoje, estejamos assistindo à saída da febre amarela da floresta e uma urbanização da doença. Se a febre amarela chegar nas cidades brasileiras, será uma catástrofe.”   

Vacinação contra a Febre Amarela. Valdecir Galor/SMCS

As mudanças climáticas são um fator de risco importante, mas não determinante – além do calor, o Aedes aegypti e o Aedes albopictus precisam de humidade para sobreviver. Em uma temperatura de 40 graus e com tempo seco, o inseto morre.

“O primeiro efeito é a frequência das picadas: quanto mais fizer calor, mais o mosquito terá tendência a picar as pessoas. Em segundo lugar, nas altas temperaturas o vírus se desenvolve bem mais rapidamente dentro do mosquito vetor: ele se torna infeccioso muito antes do que em baixas temperaturas. Quando não está tão quente, ele morre antes de ser transmissor do vírus”, explica Cyril Caminade, pesquisador da Universidade de Liverpool e do Instituto das Infecções e de Saúde Global. “E o terceiro aspecto é que o ciclo das larvas até se tornarem mosquitos adultos depende da temperatura. O ciclo se acelera no calor e nos períodos de chuvas.”

Saneamento básico – fator crucial para evitar febre amarela nas cidades

Nas grandes cidades, outro fator é crucial: as falhas de saneamento básico propiciam a proliferação dos mosquitos. Na visão de Failloux, o aquecimento global pode até não piorar o quadro – o que é certo é que não vai ajudar a melhorar, sobretudo se a reação preventiva das autoridades continuar deficiente.

“É preciso analisar a ecologia do mosquito. O Aedes aegyptis é um mosquito urbano, associado à agua mal condicionada, com problemas de saneamento básico. Portanto, ele é associado mais ao desenvolvimento econômico de uma cidade”, comenta a pesquisadora do Pasteur.

Caminade observa que mesmo em países africanos onde as condições de reprodução dos mosquitos são ainda mais propícias do que no Brasil, as políticas públicas preventivas conseguiram limitar o avanço da malária, que também é transmitida por mosquito.

“Em teoria, a febre amarela não deveria ser um problema. A questão hoje é de distribuição da vacina, por causa da falta de estoques”, ressalta o especialista em saúde pública. “E no Brasil, temos um acúmulo de problemas, com as mudanças climáticas e os fenômenos naturais, como o El Niño, que favorecem a emergência do vírus, em alguns anos mais do que em outros. É o caso da febre amarela, mas também da dengue, do chikungunya e do vírus da zika.”

Aparecimento de doenças em áreas diferentes

Não é só nos países tropicais que as alterações do clima preocupam os cientistas quanto ao retorno de doenças raras ou até erradicadas. Ocorrências incomuns em regiões temperadas chamaram a atenção para um problema global.

“No sudoeste da França, tivemos casos de chikungunya. Na Croácia, tivemos dengue. Em 2007, houve uma epidemia de chikungunya na Itália. Ou seja, começamos a ver coisas novas surgirem e as mudanças climáticas favorecem esse tipo de alteração, em especial quanto às doenças vetoriais, já que os mosquitos vivem ao ar livre e são sujeitos às mudanças ambientais”, nota Caminade.

Desde 2015, a prestigiosa revista cientifica Lancet publica relatórios anuais sobre os riscos das alterações do clima para a saúde pública. Especialistas de 24 universidades e organizações internacionais, inclusive a OMS (Organização Mundial da Saúde), advertem que, se nada for feito para limitar os impactos, os avanços obtidos nos últimos 50 anos no controle de doenças podem ser arruinados.

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