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“Quem precisa ser pacificada no Rio é a própria polícia”, afirma especialista em favelas

Por Silvano Mendes

O historiador, advogado e professor da PUC do Rio de Janeiro Rafael Soares Gonçalves está de passagem por Paris, onde participa de um debate sobre periferias e moradias informais nas grandes cidades. O autor do livro “Favelas do Rio de Janeiro: História e direito” compara as comunidades cariocas com o contexto de outros países e aproveita para fazer um balanço da ação das UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora).

Durante o debate, organizado nesta quinta-feira (1°) pelo Grupo de estudos e pesquisas críticas sobre a América Latina (GRECAL na sigla em francês), da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais, Gonçalves apresentou parte de sua pesquisa, baseada na história das favelas, vista principalmente sob o prisma jurídico. Seu objeto de estudo foi confrontado ao contexto das moradias precárias de Medellín, na Colômbia, analisadas pelo geógrafo Alain Musset, e aos acampamentos de palestinos no Líbano, tema de pesquisa da antropóloga Amanda Dias.

Para ele, as favelas cariocas beneficiam de uma dimensão muito ambígua. “De um lado, elas sempre foram associadas a um problema, à marginalidade”, comenta o pesquisador, lembrando que no início do século 20 os jornais chamavam essas comunidades de “aldeias do mal”, alimentando o medo do desconhecido. “Mas, ao mesmo tempo, desde a década de 1920, alguns modernistas brasileiros, como Tarsila do Amaral e Portinari, começaram a mostrar as favelas às vezes com representações românticas e destoantes”, analisa.

Essa dualidade é constatada pelo especialista em episódios mais recentes, como nos Jogos Olímpicos de 2016. “Durante o período de preparação do evento se aproveitou muito essa organização para remover uma série de favelas. Paralelamente, na cerimônia de abertura dos Jogos, o que estava presente era sempre a favela. Há um jogo ambíguo do Rio de Janeiro, que consiste em esconder e, ao mesmo tempo, mostrar algo próprio”.

Termo "favela" voltou a ser reivindicado

Gonçalves também comenta que até mesmo a expressão “comunidade”, adotada como um termo politicamente correto e muito utilizada em oposição ao caráter negativo da expressão favelas, tem sido abolida. “Nos dias atuais, há um movimento contrário, que reivindica o termo favela. Existe o Observatório das Favelas, o Movimento Único das Favelas, o Museu das Favelas. O termo começa a ser retomado. Ainda não sei onde isso vai levar, mas essa ressignificação é interessante”.

Além disso, o pesquisador é consciente da transformação recente dessas comunidades, mesmo se é ponderado sobre a ação das UPPs. “O termo ‘Polícia Pacificadora’ já é péssimo, pois dá sempre a ideia de uma guerra. A questão da violência urbana no Rio de Janeiro e no Brasil como um todo é algo muito mais complexo e muito mais amplo do que uma operação de guerra”, critica.

Mesmo se “num primeiro momento, a presença dessas UPPs trouxe uma diminuição da circulação de armas em algumas favelas”, muitas das conquistas se perderam, em uma espécie de “ressaca pós Jogos Olímpicos”, na esteira da crise econômica que vive o Brasil. “Eu tenho a impressão muito forte de que, no caso do Rio de Janeiro, o que precisa ser pacificado talvez seja o próprio Estado ou a própria polícia. Nós temos uma polícia extremamente corrupta, violenta e, em alguns contextos, sem generalizar, a gente não sabe mais o que é polícia e o que é tráfico”, finaliza.

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