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Golpe afetou poder de barganha e voz do Brasil no exterior, diz historiadora

Por Lúcia Müzell

Faz 15 anos que a historiadora francesa Juliette Dumont estuda a América Latina, principalmente o Brasil, a Argentina e o Chile. A professora de História do Instituto de Altos Estudos da América Latina (Iheal), na França, e presidente da Associação para a Pesquisa sobre o Brasil na Europa (Arbre) se aprofundou na construção da diplomacia cultural desses três países, tema de sua tese de doutorado. O estudo agora é publicado na França sob o título Diplomaties culturelles et fabrique des identités. Argentine, Brésil, Chili - 1919-1946 (Diplomacias culturais e fábrica das identidades. Argentina, Brasil, Chile).

Em entrevista à RFI, Dumont explica que a diplomacia cultural brasileira foi uma das responsáveis pelo país forjar uma imagem tão positiva no exterior, um trabalho iniciado no Império, mas que se reforçou durante a era Getúlio Vargas. Com o fim do nazismo, o país se apresenta como mito da democracia racial, reforçado pelos trabalhos de Gilberto Freyre.

“Isso pegou muito bem no exterior. Tivemos de esperar o fim da Segunda Guerra Mundial para o Brasil projetar uma imagem de país mestiço, com elementos africanos. Havia, por parte dos funcionários do Itamaraty, um certo receio de apresentar uma imagem africanizada do Brasil”, explica. “O país começa a promover a música popular. Até na ditadura militar, o governo promovia artistas como Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil. Em plena ditadura, o governo financia shows desses cantores no exterior.”

Gil na Cultura e o auge da projeção internacional

A pesquisadora observa que o auge dessa diplomacia ocorreu nos anos dos governos Lula – simbolizado por Gilberto Gil à frente do Ministério da Cultura. “Lula usou a cultura como ferramenta de projeção do Brasil no cenário internacional, sobretudo na dimensão da africanidade do Brasil – num momento em que, ao mesmo tempo, o país tentava ganhar mercados na África”, afirma.

A sucessora Dilma Rousseff, entretanto, não teve a mesma habilidade em manter o país sob os holofotes, prejudicada também por uma conjuntura internacional desfavorável, devido à crise internacional e o terrorismo. Mas a historiadora constata que essa perda de visibilidade se acentuou após o impeachment da petista, em 2016.

“O golpe realmente abalou um pouco essa imagem muito positiva que havia sobre o país. O Brasil estava na moda e encarnava um modelo para as esquerdas da Europa”, relembra a historiadora. “O golpe, e as imagens que circularam, por exemplo, da votação do impeachment da Dilma na Câmara dos Deputados, começaram a abalar essa imagem. Passou-se a se falar do Brasil só pela corrupção e a crise econômica. Isso afeta muito o poder de barganha do Brasil, a sua visibilidade e capacidade de ter uma voz nas instituições multilaterais”, avalia a pesquisadora.

Preocupação com intervenção no Rio de Janeiro

Em um contexto de nostalgia da ditadura militar por uma parcela dos políticos e da população, Dumont vê com preocupação a decisão de Michel Temer de enviar o Exército para restabelecer a segurança no Rio de Janeiro. Ela avalia que, hoje, é impossível prever o desfecho da intervenção federal.

“O fato de o general [Eduardo Villas Bôas, comandante do Exército] ter dito que não quer uma nova Comissão Nacional da Verdade que julgue os militares é muito preocupante. Não sabemos muito sobre qual foi a parte do Exército no impeachment - mas a comissão, que durou de 2011 a 2015, foi muito criticada nas Forças Armadas”, disse.

A historiadora considera que as instituições nascidas da Constituição de 1988 “estão muito frágeis” porque o país não refletiu o bastante sobre a herança da ditadura. “Em especial, sobre as violências exercidas pela Polícia Militar e o Exército, mas não só: também a Justiça, o Legislativo, a mídias e grandes grupos da sociedade, as empresas, que não cumprem o espirito da Constituição de 1988.”

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