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Protestos levam roqueiro francês que matou atriz a renunciar a shows em festivais de verão

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Bertrand Cantat em show em Detroit, nos EUA, em 2014. AFP

O cantor francês Bertrand Cantat, ex-líder da banda de rock Noir Désir, condenado pelo assassinato da atriz Marie Trintignant, em 2003, cancelou todos os shows que faria nos festivais de verão na França, depois de uma série de protestos e petições de mulheres condenando a programação do cantor.


Somente um dos abaixo-assinados pedindo o cancelamento do show do cantor recebeu 70 mil adesões na Normandia. Rejeição semelhante é vista em outras regiões do país. Em carta publicada na noite de segunda-feira (12), em sua página no Facebook, Cantat, 54 anos, jogou a toalha. Ele decidiu renunciar aos shows do verão para "acabar com a polêmica e a pressão sobre os organizadores" dos festivais. Por outro lado, o artista informa que mantém as apresentações agendadas em sua própria turnê, iniciada no dia 1° de março em La Rochelle, com datas previstas em Paris nos dias 29 e 30 de maio.

Cantat tornou-se uma figura polêmica na França desde que matou sua ex-companheira Marie Trintignant durante uma briga do casal quando ela participava de uma filmagem na Lituânia. Filha do ator Jean-Louis Trintignant e da cineasta Nadine Trintignant, Marie tinha 41 anos na época e deixou quatro filhos. Ela morreu em decorrência de um edema cerebral provocado pelos golpes de Cantat. A autópsia revelou que Marie levou 19 socos do roqueiro, quatro deles no rosto. Cantat foi condenado a oito anos de prisão, mas foi libertado por boa conduta em 2007, depois de cumprir pouco mais da metade da pena.

Mulheres de organizações feministas protestam com cartazes e fotos de Marie Trintignant com os dizeres: "Se matar é uma arte, deem a vitória Cantat, "Machismo mata" e "Fim das honras para os agressores" em frente ao Rockstore em Montpellier 12/03/18 PASCAL GUYOT / AFP

Duas mulheres mortas

Saindo da prisão, Cantat voltou a morar com sua ex-mulher, Krisztina Rády, com quem teve dois filhos. Porém, em janeiro de 2010, ela se suicidou em casa, reascendendo as suspeitas de violência doméstica. Na época, o cantor ainda estava sob controle judiciário, e a investigação sobre o suicídio descartou sua implicação. No entanto, no meio artístico e para os franceses, esse novo drama familiar reforçou a imagem do cantor como um homem violento, atormentado e com relações tumultuadas com as mulheres.  

Cantat voltou à cena em dezembro do ano passado. Na promoção de seu novo álbum solo, "Amor Fati", ele deu uma entrevista de capa à revista Inrocks. A publicação recebeu uma enxurrada de críticas e protestos por ter cedido sua capa ao autor de um assassinato. A repercussão negativa foi tão grande que a revista se desculpou publicamente.

Mas Cantat vem tocando a vida e, na carta publicada ontem no Facebook, ele evoca o direito à reinserção social como qualquer outro ex-condenado. "Tenho o direito de exercer minha profissão", diz ele.

Não é o que pensa Nadine Trintignant, mãe da atriz morta. Em entrevista à TV na noite desta segunda-feira, ela disse não se conformar com o fato de Cantat encontrar espaço para se produzir em shows. "Acho vergonhoso, indecente e nojento que Cantat pise num palco, quando todos sabem que ele matou Marie". No Facebook, o roqueiro, que liderou uma das bandas mais inovadoras e de sucesso nos anos 1980 e 1990, reiterou "a compaixão mais sincera, profunda e total à família e aos próximos de Marie".