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Traduzido para o francês, romance de Ana Maria Machado revê heroína da emancipação feminina no século 19

Por Márcia Bechara

Três vezes vencedora do prêmio literário Jabuti, ela publicou mais de cem livros, traduzidos para cerca de 20 idiomas e distribuídos em 26 países, com um total de 20 milhões de exemplares vendidos. Exilada pelo regime militar brasileiro no fim da década de 1960, ela veio para Paris, onde terminou seu doutorado sob a supervisão de Roland Barthes. O RFI Convida nesta terça-feira (13) a escritora Ana Maria Machado, que lança seu terceiro romance traduzido para o francês, “Cap vers la liberté” (“Um mapa todo seu”, no título original em português), durante o Salão do Livro de Paris de 2018. Ela fala sobre literatura, mas também sobre sua relação com a capital francesa, exílio, emancipação feminina, discriminação contra a mulher e sobre o Rio de Janeiro, sob intervenção militar.

*Para ver a entrevista na íntegra, clique no vídeo abaixo

Em 2000, Ana Maria Machado ganhou o Prêmio Hans Christian Andersen, considerado o prêmio Nobel de Literatura Infantil Mundial. Em 2001, recebeu o Prêmio Literário Nacional Machado de Assis, na categoria conjunto da obra. Qual o segredo do fôlego de sua escrita? “É um fôlego de maratonista”, diz a escritora, “não de corrida curta”. “Escrevo todo dia um pouquinho há muito mais de 40 anos”.

Seu terceiro romance traduzido para o francês, “Cap vers la liberté”, recupera a história de uma fascinante personagem brasileira do século 19, Eufrásia Teixeira Leite, e seu amor pelo abolicionista Joaquim Nabuco, sua insubmissão aos padrões da época, sua luta pela liberdade das mulheres e a sua própria, num contexto de combate dos escravos no Brasil pela abolição. “Esse protagonismo feminino vem se construindo muito aos poucos. No momento em que eu capto a Eufrásia Teixeira Leite, isso ainda não era muito evidente nas Letras, vemos poucas precursoras no século 19, mesmo se houve Nísia Floresta e outras”, analisa a escritora.

“O movimento das mulheres na literatura brasileira começa já no século 20, e com muita força. Embora ainda no começo, elas fossem discriminadas nos meios que as levassem mais ao público, mas, de qualquer modo, já nos anos 1940, 1950, já começamos a ver várias mulheres escrevendo em jornal e se destacando nisso, como Adalgisa Nery, depois Clarice Lispector estoura, Lígia Fagundes Telles, Cecília Meirelles”, afirma Ana Maria Machado. “Encontramos de certo modo alguns caminhos já abertos, embora não fossem avenidas largas”, diz.

“[A personagem] Eufrásia teve duas boas fortunas na vida. A primeira é que ela era uma herdeira rica. Não tinha irmãos, a família era rica por parte de pai, financista, e de mãe, vinda de uma família de grandes proprietários de café no Vale do Paraíba. Ela herda essa fortuna muito cedo e resolve que não vai se casar com quem os tios queriam, ela se rebela contra a autoridade patriarcal de um tio que queria tomar conta do dinheiro”, conta Ana Maria Machado.

“Ela decide administrar isso, e vem para Paris para poder ter uma distância e ser dona do seu nariz. A segunda sorte que ela teve foi que seu pai tinha entendido a importância da educação para mulheres que a ensinou economia, as regras do jogo das finanças”, completa.

“É um romance de época baseado em fatos históricos, fiz uma pesquisa bastante grande, sobre a época, sobre eles, o diário dele, e ele é Joaquim Nabuco, um grande personagem”, afirma. “O que me fascina nessa história é o fato de captar um momento em que questões libertárias estavam sendo colocadas para os dois, embora nem sempre conscientes. Ela não tinha consciência de que estava sendo uma ponta de lança da autonomia financeira da mulher, mas ele era consciente de que lutava contra a abolição da escravatura, que considerava o maior mal do Brasil”, analisa.

“Ele achava que a escravidão ia se manter, perpetuada em desigualdades brasileiras durante muito tempo, como nós vemos agora, que isso está ligado à situação de posse da terra. Esse momento de consciência de que é necessário mudar a situação da mulher e a situação dos africanos escravizados é muito forte e esse momento me fascina muito”, afirma.

Será que em algum momento a autora, que foi presidente da Academia Brasileira de Letras no biênio 2012-2013, sentiu na pele a discriminação contra a mulher? A resposta vem rápida e tranquila: “Tive uma certa sorte, encontrei algumas vias abertas pelas mulheres que me precederam. Em segundo lugar, as áreas em que fui atuar são áreas em que é menos marcada essa rejeição. Mais eu senti essa discriminação muito mais no jornalismo do que na literatura. Fui jornalista muitos anos e encontrei editores que diziam – ‘enquanto eu mandar nesse lugar aqui, mulher não assina matéria no Primeiro Caderno’. Ou então ser promovida para um posto de chefia e ser a única que ganhava menos”, lembra.

Confira a entrevista completa no vídeo abaixo:

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