rfi

Ouvindo
  • RFI Brasil
  • Último jornal
  • RFI em francês
RFI CONVIDA
rss itunes

“Minha literatura contribui para quebrar o mito da democracia racial brasileira”, diz Conceição Evaristo

Por Paloma Varón

Escritora e poeta brasileira nascida em Belo Horizonte em 1946, ela cresceu numa favela, cercada de mulheres. Se formou professora e fez carreira no Rio de Janeiro. Começou a escrever tarde e foi reconhecida ainda mais tardiamente.

Hoje tem romances traduzidos para o francês, inglês e espanhol e faz parte de antologias publicadas no mundo inteiro. Ganhou os mais importantes prêmios de literatura do Brasil, incluindo o Jabuti, e foi a convidada especial da Flip, a festa literária de Paraty do ano passado.

O RFI Convida de hoje recebe Conceição Evaristo, que está em Paris para participar do Salão do Livro, onde lança a sua obra mais recente, Insubmissas Lágrimas de Mulheres.

Ela já tem outros dois livros traduzidos para o francês e vem pela segunda vez ao evento na França, onde é comparada à escritora americana negra Toni Morrison, ganhadora de um Pulitzer e um Nobel.

Para Evaristo, toda literatura pode trazer a vivência e a subjetividade de quem escreve, “mas talvez algumas literaturas e algumas narrativas tragam muito mais”.

Ela explica: “Estas narrativas são justamente o lugar destas pessoas colocarem as suas entidades. E, no caso das mulheres, no caso das mulheres negras, no caso dos grupos ou das comunidades que sofreram processos de subalternização, a literatura é o lugar de liberdade, de denúncia, então eu acho que fica muito marcada esta subjetividade individual e dos grupos”.

Educação

“A educação é o meio [para a ascensão social no Brasil], mas é também uma esperança, porque muitas vezes você estuda, você tem uma certa competência, mas há outras interdições sociais que não permitem ou que te bloqueiam o caminho”, disse a escritora.

“Nem todas as mulheres que têm uma competência profissional estão encaixadas no mercado de trabalho. Nem todos os negros e negras que têm uma competência profissional estão encaixados. Então a gente pode pensar que o racismo muitas vezes deixa de reconhecer a competência destas pessoas. Mas sem sombra de dúvidas a educação é um meio e deveria ser um meio para todas e todos”, declara.

Ativismo como compromisso

Conceição Evaristo se considera ativista da causa negra.

“Eu me considero ativista, sim, e tenho este compromisso. Quando eu trabalhei na educação, como professora, este era também o meu compromisso. Em momento algum eu esqueço que eu tenho este compromisso, esta militância. E hoje mais ainda, até por causa do alcance de minha voz. Eu não posso chegar nos lugares e silenciar sobre a condição do negro brasileiro”, avalia.

“Acho que a minha literatura contribui para quebrar o mito da democracia racial brasileira. Não só a minha, mas a literatura de autoria negra, de homens e mulheres. Nós apresentamos uma outra narrativa dentro do próprio sistema literário brasileiro. Acho que é uma especificidade que a nossa narrativa traz, essa voz negra como sujeito autoral de si próprio”, analisa.

Sobre os casos de racismo recentes nas instituições universitárias paulistas, ela diz acreditar que a literatura e o ativismo podem contribuir para melhorar o cenário.

“Primeiro, por criar uma consciência. Eu vejo muitos acadêmicos, muitos professores, pessoas não negras, em minhas palestras, que depois chegam perto de mim e falam: ‘Nossa, eu nunca tinha pensado que o racismo pudesse ser tão cruel’ ou ‘Eu nunca tinha me reconhecido como racista’. Então eu acho que este discurso literário e o meu discurso mesmo como pessoa –  e de outras e outros negros  –  tem um papel importante na conscientização de brancos e negros na sociedade brasileira”, observa.

Angela Davis, apartheid e descolonização

Ela conta que recebeu a influência dos negros americanos nas lutas pelos direitos civis. “O meu cabelo black power é influência de Angela Davis. Nós somos contemporâneas, nós temos a mesma idade, então na minha juventude, quando eu vi uma jovem tão lúcida, tão comprometida, isso me influenciou”, revela.

“Nós somos marcados pela postura de Angela Davis, pelo discurso de Luther King, pela reflexão de Mandela, que naquele momento ainda estava preso. Então pensar o apartheid na África do Sul e o apartheid americano era pensar também o apartheid brasileiro”, considera a ativista.

“As lutas de libertação das ex-colônias africanas, principalmente as portuguesas, que estavam muito próximas da gente, até pela língua portuguesa, então todas estas lutas mundiais em que os negros estavam, desde a Africa até a diáspora, foram lutas que marcaram muito a nossa formação como militantes negros brasileiros”, conclui.

Comitiva de indígenas brasileiros na Europa reforça campanha contra acordo UE-Mercosul

Claudia Jaguaribe lança livros de fotografia sobre mulheres e meio ambiente em Paris

“Atualidade política e social do Brasil me inspirou”, diz Flávia Coelho sobre disco DNA

“Leiam escritores brasileiros vivos!”, pede Fred Di Giacomo, finalista do Prêmio SP de Literatura

Mestre da Arte Óptica, Marcos Marin expõe em Paris obras de Neymar e Santos Dumont

Curador expõe fotógrafos brasileiros da nova coleção da Biblioteca Nacional da França em "Terra Brasilis"

Palcos europeus recebem pela primeira vez a música-poesia de Arthur Nogueira

Revelação do violão brasileiro, João Camarero leva sofisticação do choro a plateias europeias

Do interior do Amazonas a digital influencer premiada em Mônaco: a história de Cacau Sitruk

Duo franco-brasileiro lança disco que mistura “Trem das Onze” e Erik Satie

“Meu trabalho é pela pacificação”, diz pintora brasileira que expõe em Paris

Luiza Brunet diz que “toda mulher é feminista”: “apanhar aos 50 foi gota d’água”

Feira de Frankfurt: “Brasil é o país das impossibilidades”, diz Luiz Ruffato

“Se não tomarmos cuidado, fotografo um mundo em extinção”, diz Sebastião Salgado em Frankfurt

Barbara Paz: Documentário premiado em Veneza é seu “filho-filme” com Babenco

Conferência Internacional [SSEX BBOX] em Paris tem Jean Wyllys e Lea T na programação