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Marielle Franco Maio de 68 Glauber Rocha Intervenção militar Repressão

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Releitura de 1968 ressalta probabilidade da volta da repressão militar no Brasil

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Militares na Cidade de Deus, no Rio de Janeiro (01/02/18). REUTERS/Ricardo Moraes

“O Momento 1968” é um colóquio que reuniu em Paris, nesta quinta-feira (29), vários historiadores e pesquisadores para discutir o período efervescente em todo o mundo há 50 anos e as especificidades de alguns países da América Latina. O encontro aconteceu no Instituto de Altos Estudos da América Latina (Iheal).


Uma das participantes, a historiadora francesa Maud Chirio, lembrou que a data coincide com os 50 anos da morte do estudante secundarista Edson Luís, no Rio de Janeiro, estopim de manifestações gigantes em um Brasil mergulhado na repressão da ditadura.  

“Impossível não fazer um paralelo com o extermínio da ativista Marielle Franco”, disse Chirio, da Universidade Paris Leste Marnée-la-Valée.

Rio é laboratório para militares

A especialista francesa falou no colóquio sobre o apogeu e virulência do regime militar no Brasil durante a ditadura. Questionada pela RFI Brasil sobre a possibilidade de a intervenção militar atual no Rio se espalhar por outras cidades, ela lembrou que o próprio governo disse que “o Rio é apenas um laboratório”. Além disso, “o Rio nem é a cidade com as maiores taxas de violência e homicídio”, o que pode proporcionar a expansão dessa fase, segundo Chirio.

“Vai depender de diversos fatores, da estratégia de certos setores políticos e também da evolução da violência política, que pode levar a um estado de sítio, à suspensão de outras garantias constitucionais e ao uso mais amplo das Forças Armadas - é um caminho não só possível, mas provável”, opina a historiadora.

Releitura cultural politizada

Em relação à cultura como meio de resistência, o sociólogo Marcelo Ridenti, da Unicamp, lembra que “é muito importante não separar cultura de política quando se fala em 1968”. Ele cita o exemplo dos artistas concretistas, como Sérgio Ferro e Claudio Tozzi, que, “desde o início dos anos 1960, evocavam Maiakovski para dizer que uma revolução se iniciava pela forma”. Na Bienal de São Paulo de 1967, por exemplo, os concretistas se inspiraram na arte pop para criar reinterpretações politizadas, aponta Ridenti.

“A ideia era que a transformação política fosse também revolucionária, inspirada, por exemplo, pelo espírito da revolução cubana, ou existencial, a fim de mudar a vida, os costumes, a quebra das instituições, de resistência à ditadura vigente”, declarou o sociólogo da Unicamp.

Ridenti falou também sobre a apropriação cultural de músicas como “Soy Loco Por ti América”, cantada por Caetano, por uma América livre, que surgiria de um processo revolucionário. Mas o tema acabou sendo usado para a abertura de uma novela global e passou a simbolizar uma outra América, o Eldorado de imigrantes econômicos.

Estética da Fome global

Mas o sociólogo fala de um exemplo de resistência cultural que transcendeu fronteiras – Gláuber Rocha. Imbuído de influências que iam de Frantz Fannon, ensaísta francês bastante implicado na Guerra da independência da Argélia e na defesa do “terceiro mundo”, ao neorrealismo italiano e à nouvelle vague francesa, o genial cineasta baiano lançou o histórico manifesto “A Estética da Fome”, de 1965, escrito durante um voo.

“Quando Gláuber propunha um novo cinema brasileiro para pensar a questão da nação e da construção do povo brasileiro, ele estava mobilizando todo esse contexto internacional da América Latina, do terceiro mundo”, disse Ridenti.  

O encontro em Paris também fez um retrato dos movimentos estudantis no Brasil, com a historiadora Angélica Müller, da Universidade Federal Fluminense, no México (Romain Robinet, da Universidade de Angers) e no Chile (Manuel Suzarte, Sorbonne Nouvelle).

O momento 1968 também foi visto pela ótica cultural do Uruguai (Vânia Markarian, Universidade da República) e do Brasil, com intervenção de Marcelo Ridente. Sobre a questão militar, tão presente na América Latina na época, Maud Chirio falou sobre o Brasil de então e de hoje. Irène Favier, da Universidade Grenoble, explicou o histórico do militarismo peruano.