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Floresta amazônica pode virar savana antes do que se pensava

Por Lúcia Müzell

A floresta mais rica do planeta se aproxima perigosamente de um limite de degradação que a transformaria em savana, com uma perda brutal de biodiversidade e consequências para o clima da América Latina e o combate mundial contra o aquecimento global. Uma pesquisa realizada por dois dos maiores especialistas na Amazônia chegou à conclusão alarmante de que mais da metade da floresta pode virar savana antes do que os cientistas imaginavam.

Pela primeira vez, foram analisados diferentes cenários de projeção de desmatamento e incêndios florestais em conjunto com as estimativas de aquecimento global até o fim do século. O resultado é que, se entre 20 e 25% da Amazônia for destruída ao mesmo tempo em que a temperatura global subir ao menos 2°C, a savanização do bioma será um caminho irreversível. Atualmente, a degradação está em 17%.

Os estudos anteriores apontavam para uma devastação de no mínimo 40% e uma elevação de ao menos 4°C da temperatura, em uma época em que os efeitos conjugados dos dois fatores ainda eram desconhecidos, indica Carlos Nobre, membro da Academia Brasileira de Ciências e coautor da pesquisa, ao lado de Thomas Lovejoy, professor da George Mason University (EUA).

Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite (Prodes), do Instituto Nacional de Pesquisas Especiais (Inpe). 28/12/17 CRISTINO MARTINS / ARQUIVO / AG. PARÁ

“Só mais recentemente nós começamos a entender os efeitos ‘sinergísticos’, ou seja, o que significa se somamos todas as ações humanas. Nós realmente não tínhamos uma noção muito clara de quais seriam os limites”, afirma Nobre, um dos nomes mais respeitados no tema. “Como é muito difícil controlar o aquecimento global nesse século, nós temos que tomar cuidado com os outros fatores.”

Até 60% da floresta atingida

Isso significa que, no lugar da floresta, uma fisionomia semelhante ao Cerrado, porém mais empobrecida, se instalaria em uma parte considerável na Amazônia. A perda da biodiversidade seria inestimável: apenas as espécies mais resistentes a altas temperaturas e ao clima seco resistiriam.

“As partes mais vulneráveis a essa mudança para uma savana degradada são o leste, sul e sudeste, ou seja, do centro da Amazônia para o lado brasileiro. Os lados mais vulneráveis são o brasileiro e da Bolívia. A parte andina, no Peru, na Colômbia e um pouco da Bolívia, é mais resistente”, pontua o cientista. “Dependendo da escala do aquecimento global e dos desmatamentos, a perda de floresta pode chegar a até 60%, ou mesmo ultrapassar 60%”, alerta.   

O professor e pesquisador Carlos Afonso Nobre, da Academia Brasileira de Ciências (ABC) Creative Commons CC0 License/wikipédia

A perda de mais da metade do “pulmão do mundo” ocasionaria consequências não só para o clima regional, como para o esforço global de redução de emissões de gases de efeito estufa. A queda do volume de chuvas na Amazônia geraria uma diminuição de até 20% das precipitações em toda a bacia do Prata – que vai do sul do Brasil ao Uruguai, Paraguai e Argentina –, no período do inverno.

Participação no combate global de redução de emissões

Além disso, explica Nobre, a Amazônia tem um papel importante na redução de emissões de gases poluentes, ao capturar entre 100 e 120 bilhões de toneladas de carbono. Em um cenário de destruição de 60% da floresta, 50 bilhões de toneladas de carbono a mais seriam jogados na atmosfera.

“Isso é o equivalente a cinco ou seis anos de emissões globais, ou seja, tornaria mais complexa a mitigação do aquecimento global, já que a emissão da perda de florestas representa entre 10 a 15% das emissões mundiais.

Apesar dos riscos, o arsenal legislativo de proteção do bioma só se enfraqueceu nos últimos anos, desde a aprovação do Novo Código Florestal, considerado permissivo demais pelos ambientalistas. A última derrota dos defensores da floresta foi em março, quando o STF manteve o perdão de multas a fazendeiros por desmatamento em áreas protegidas – o que, para Nobre, representa um permanente incentivo à ilegalidade.

“Nós tivemos uma grande redução do desmatamento de 2005 a 2012 mas depois ele voltou a crescer a níveis preocupantes, não só no Brasil como em vários outros países amazônicos. E nos últimos anos, nesse governo, estamos vendo um ataque frontal à lei ambiental, que fragiliza demais os controles para conciliar a agricultura moderna com conservação”, lamenta o pesquisador aposentado do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais).

A ameaça mais recente é um projeto que tramita no Senado e visa liberar o plantio de cana de açúcar em áreas degradas da Amazônia. A votação do texto, criticado até pelo próprio setor, já foi adiada duas vezes.

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