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“Derrota de Lula no STF cria um vácuo político”, diz analista da SciencesPo

Por Elcio Ramalho

A decisão do Supremo Tribunal Federal de rejeitar o pedido de habeas corpus de Lula e abrir caminho para o ex-presidente ser preso gerou profundas incertezas para as eleições presidenciais no Brasil, segundo o cientista político Gaspard Estrada, da SciencesPo de Paris.

A votação apertada, de 6 a 5, desfavorável ao ex-presidente petista, foi uma demonstração de falta de liderança do STF e da divisão do país, de acordo com o especialista. 

“O resultado mostra a divisão do colegiado do STF. Houve uma grande polarização nos dias antes da votação, inclusive com apelos do Exército aos magistrados, o que nunca aconteceu desde o fim da ditadura militar”, observou Estrada.

O cientista político viu com muita preocupação as mensagens enviadas por vários militares da reserva e da ativa sobre o processo em tramitação na mais alta corte jurídica do país. Pelo Twitter, o comandante do Exército, Eduardo Villas Bôas, expressou seu “repúdio com impunidade” e o respeito à Constituição. Estrada entende que foram demonstrações de interferência no processo.

“Teve um peso muito forte no contexto político no qual a decisão dos ministros foi tomada. Além do próprio voto, o mais grave é que o Exército não está aí para fazer política e, sim, para seguir as leis. Essas declarações públicas tanto de comandantes de generais da ativa quanto da reserva, em uma democracia, são inaceitáveis”, disse.

As opções do PT 

A derrota de Lula no STF cria, segundo o especialista um “vácuo político”. Ao se referir à liderança do ex-presidente nas pesquisas de opinião, que o creditavam com cerca de 35% das intenções de voto, Estrada questiona: “A grande questão é saber para onde esses votos vão migrar até outubro”. 

O Partido dos Trabalhadores, comenta Estrada, tem as opções internas com os nomes do ex-prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, e do ex-governador da Bahia e ex-ministro, Jacques Wagner, sendo evocados. No entanto, essas lideranças enfrentam resistências internas por diferentes alas do partido. No caso de Wagner, por exemplo, ele poderia ser barrado devido a problemas com a Justiça. Uma terceira opção para o partido, comenta Estrada, seria o PT abrir mão de um candidato para apoiar um nome de outra legenda. "No entanto, desde os anos 1980, o Partido dos Trabalhadores sempre buscou ter a hegemonia da esquerda no Brasil“, avalia.

Isso seria uma grande novidade, mas, hoje em dia, com o contexto atual do Brasil, tudo é possível”, salienta.

“A oferta política ainda não está bem estabilizada. Não está claro qual será o quadro”, afirma, referindo-se às pré-candidaturas de Jair Bolsonaro e de Geraldo Alckmin. “Pode ser um quadro muito pulverizado como em 1989, com muitos candidatos com baixos níveis de intenção de voto, ou se haverá uma eleição com blocos, como aconteceu em 2010, quando houve grandes coalizões", afirma.

Gaspard Estrada lembra que esta eleição presidencial será a primeira com as novas regras que proíbem as empresas de financiar campanhas. A possibilidade de que candidatos se autofinanciem pode criar novas distorções entre dinheiro e política. “Esse é o elemento-chave para entender não apenas a Lava Jato, mas também toda essa crise política do Brasil nos últimos anos”, analisa.

Segundo ele, muitos partidos poderão optar por financiar candidaturas de deputados e senadores para manter bases no Congresso, ao invés de investir em uma campanha para presidente.

 

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