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Um pulo em Paris
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Imprensa europeia dá crédito a Lula pelas conquistas sociais que promoveu no Brasil

Por Adriana Moysés

A decretação da prisão do ex-presidente Lula preocupa a imprensa europeia. De um lado, jornais e revistas assinalam "a queda do ícone da esquerda brasileira", por outro lado demonstram receio com o possível acirramento da violência pré-eleitoral no Brasil.

É consenso entre especialistas e jornalistas europeus que a luta contra a corrupção é absolutamente necessária no Brasil. Mas dentro das regras democráticas, constitucionais e desde que se observe a mesma exigência para toda a classe política, independentemente de cargo e partido político.

Muitos observadores europeus notam que a celeridade dada ao processo do ex-presidente Lula, eleito pelo Partido dos Trabalhadores, denuncia uma intenção política do Judiciário brasileiro de afastá-lo da corrida presidencial de 2018. Não é que eles "compram" a tese dos defensores de Lula e do próprio ex-presidente. Eles apenas observam, ouvindo as divergências de opinião entre juristas, que o Judiciário agiu, no caso de Lula, com um rigor e celeridade excepcionais.

A ordem de encarceramento de Lula, sem que a defesa tenha exaurido os recursos judiciais previstos na Constituição, é comentada nesta sexta-feira (6) pelo advogado Charles Henry Chenut – sócio de um grande escritório de advocacia franco-brasileiro em Paris. Em entrevista ao jornal La Croix, Chenut diz que "do ponto de vista jurídico, é uma decisão discutível; porém, do ponto de vista estratégico, é preciso haver uma garantia de manutenção da luta contra a corrupção". Chenut justifica o "posicionamento estratégico" diferenciado para o petista citando o caso do ex-governador de São Paulo Paulo Maluf, "condenado na década de 1990, preso apenas no ano passado".

O jornal britânico The Guardian afirma que a prisão de Lula "representará um golpe à sobrevivência política do primeiro presidente da classe trabalhadora do Brasil e potencialmente aprofundará as divisões no país, que tem sido afetado por episódios de violência política". Como assinalam alguns juristas brasileiros, o Supremo Tribunal Federal (STF) tem dilatado a tensão. Passou de poder moderador a poder tensionador.

Deputados britânicos publicam carta de apoio a Lula

Em um carta aberta publicada no The Guardian, quatro deputados trabalhistas do Reino Unido, dois integrantes da Câmara dos Lordes, líderes sindicais, ativistas de Direitos Humanos, além de professores de Direito e de Ciência Política, relatam "as tentativas de impedir que o popular ex-presidente Lula da Silva permaneça na eleição presidencial do Brasil em outubro".

Os assinantes afirmam que "Lula foi submetido a uma acusação e condenação política", ignorando "evidências de sua inocência" e desencadeando uma "crise de confiança no Estado de Direito". "Não se trata apenas de um homem, mas do futuro da democracia no Brasil. Acreditamos que ele deveria ter permissão para ficar em liberdade. O povo brasileiro pode decidir seu próprio futuro", diz o texto da carta.

O cientista político Gaspard Estrada, da SciencesPo de Paris (universidade que forma a elite política na França, ao lado da Escola Nacional de Administração ENA), viu com muita preocupação as mensagens enviadas por vários militares da reserva e da ativa sobre o processo em tramitação nas instâncias judiciais. Pelo Twitter, o comandante do Exército, Eduardo Villas Bôas, expressou seu “repúdio contra a impunidade” e o respeito à Constituição. Estrada entende que foram demonstrações de interferência no processo.

“Teve um peso muito forte no contexto político no qual a decisão dos ministros do STF foi tomada. Além do próprio voto, o mais grave é que o Exército não está aí para fazer política e, sim, para seguir as leis. Essas declarações públicas tanto de comandantes de generais da ativa quanto da reserva, em uma democracia, são inaceitáveis”, disse Estrada em entrevista à RFI.

Pouco tempo depois de ser eleito, no ano passado, o presidente Emmanuel Macron demitiu o então chefe do Estado-Maior francês que reclamou publicamente de uma redução no orçamento da Defesa. Na República Francesa – e o Brasil adota o mesmo princípio – o presidente da República é constitucionalmente o comandante supremo das Forças Armadas, que ficam subordinadas às ordens do chefe de Estado.

O posicionamento de militares brasileiros é interpretado pelos europeus como uma ameaça às conquistas democráticas dos últimos 30 anos, principalmente porque as instituições brasileiras dão sinais de fragilidade.

"Herói ou bandido?"

A revista alemã Der Spiegel, assim como o jornal francês Le Monde, notam uma deformação na forma como os simpatizantes do ex-presidente Lula e também seus detratores se referem ao ex-chefe de Estado. "Herói ou bandido?", intitula nesta sexta a publicação alemã. A figura do ex-chefe de Estado foi estigmatizada e estereotipada de forma paradoxal.

Os europeus estão acostumados a ter da extrema-direita à extrema-esquerda no debate político e lamentam que a divergência de ideias, intrínseca à democracia, esteja tendendo para a violência no Brasil. O que mais impressiona a imprensa europeia é a polarização política, a profunda divisão atual da sociedade brasileira, momentaneamente irreconciliável.

O conservador Le Figaro cita hoje o assassinato recente da vereadora Marielle Franco (PSOL) e o ataque a tiros à caravana de Lula durante sua campanha pelo sul país. “Lula se coloca como um mártir de uma Justiça decidida a impedi-lo de conquistar o seu terceiro mandato”, evidenciado pelas pesquisas de opinião, diz Le Figaro. Mas "os brasileiros não se esquecerão do presidente que fez mais de 30 milhões de pessoas saírem da miséria". Ainda em sua matéria, o diário francês cita a plataforma Netflix que, por "coincidência ou estratégia de marketing", ironiza o texto, lançou a série “O Mecanismo”, que faz alusão à operação Lava Jato, no mesmo momento em que a Justiça decidiria sobre destino de Luiz Inácio Lula da Silva.

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