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BNDES Crise Recessão Corrupção

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BNDES se prepara para a fase pós-recessão da economia brasileira

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Seminário "Infraestrutrura para o desenvolvimento da América Latina", em Buenos Aires. Márcio Resende/RFI

O Banco de Desenvolvimento contrata auditoria externa e procura recuperar a sua imagem na região onde quer impulsionar projetos de integração física. Também muda modelo de financiamento para captar novos projetos. Brasil e Argentina podem integrar mercado de capitais.


Márcio Resende, correspondente da RFI Brasil em Buenos Aires

O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) deixará de ser apenas receptivo de demandas de crédito para atuar no desenvolvimento de projetos, principalmente na área de infraestrutura. Também vai mudar o modelo de financiamento, usando instrumento do mercado de capitais. E prepara-se para uma nova fase de projetos de integração física pela América Latina, onde a sua imagem foi prejudicada a partir dos escândalos de corrupção que envolveram empreiteiras brasileiras.

"Estamos estruturando uma área do BNDES para apoiar os governos federal, estadual e municipal para desenvolver projetos de infraestrutura do país. A nossa maneira de financiar os projetos vai passar também por uma mudança importante: o BNDES vai buscar o máximo possível diversificar as fontes de financiamento dos projetos. Em vez de financiarmos 100% do projeto, vamos tentar obter o máximo de financiamento no mercado privado e que o BNDES apenas complemente aquilo que não for absorvido pelo mercado", antecipa o presidente do BNDES, Dyogo Oliveira.

"Essa dinâmica que estamos criando é a que vai apoiar a retomada do investimento pelo BNDES", sintetiza.

Corrupção

A retomada de projetos de infraestrutura pela região, uma prioridade para o BNDES, pode enfrentar a desconfiança e até mesmo a resistência de governos e sociedades que tendem a ver as empreiteiras brasileiras, financiadas pelo banco de desenvolvimento brasileiro, como parte de um mesmo esquema.

"Não há nenhum funcionário do BNDES sequer acusado de ter participado de nenhum esquema de corrupção e o banco está apoiando todas as investigações", diferencia Oliveira.

"Estamos trabalhando a imagem do BNDES, mostrando a separação do que é a atuação do banco e o que são os desvios e erros das empresas financiadas. O BNDES não tem condições nem capacidade para investigar o que a empresa faz no seu dia a dia. O seu papel é avaliar o risco de crédito e a aplicação de recursos conforme previsto no projeto", defende-se.

Ciente da imagem que precisa recuperar, apesar de não aparecer em nenhuma delação, o banco desenvolveu auditorias internas e passa agora a uma fase externa para elevar a sua transparência.

"Estamos contratando uma auditoria externa, especializada e internacional para operações financeiras e bancarias que nem sempre uma auditoria do CGU ou do TCU tem conhecimento especializado para compreender e avaliar. Além disso, o BNDES passou a divulgar todas as suas operações, algo que nenhum outro banco no mundo faz", destaca.

Governos da região demonstram-se receosos em conceder novos projetos às empresas brasileiras que teriam o financiamento do BNDES.

"De fato, as empresas brasileiras estão prejudicadas. Têm tido dificuldade de obter novos contratos. O BNDES está participando de eventos como este para mostrar que não esteve envolvido em atividades ilegais. Tem falado com a imprensa e com órgãos dos governos", aponta Dyogo Oliveira, quem veio a Buenos Aires para o seminário da Corporação Andina de Fomento (CAF) sobre "Infraestrutrura para o desenvolvimento da América Latina" e participou do painel "Infraestrutura para a Integração".

Nova fase na integração regional

O BNDES parte para uma nova fase de integração regional a partir de ferramentas ainda inexistentes no financiamento de projetos regionais.

"O banco vai começar a dedicar recursos e pessoal para desenvolver e viabilizar projetos. Vamos fazer isso nos projetos no Brasil e nos projetos de integração regional. Precisamos desenvolver as condições financeiras para os projetos. Esse é o próximo desafio no qual o BNDES estará envolvido", anuncia Dyogo Oliveira.

"É uma prioridade impulsionar projetos de integração física na região, mas temos um problema: os governo não tem recurso e os bancos multilaterais têm as suas limitações", observa.

Uma solução pode ser a Parceria Público Privada (PPP). "O que propomos é que a gente invista no desenvolvimento dos estudos para que a gente possa concluir em cada projeto qual é o melhor modelo: se é financiamento ao país, se é fazer uma empresa binacional (como foi Itaipu), se é uma PPP. Precisamos investir tempo e inteligência para modelar a melhor estrutura financeira e jurídica para a viabilidade de cada projeto", aponta o presidente do banco.

Retomada dos desembolsos

No primeiro trimestre do ano, os desembolsos do BNDES caíram 26% em relação ao mesmo período de 2017, um ano também de queda. O fraco desempenho revela a escassa demanda das empresas para retomar os investimentos numa economia que sai lentamente da maior recessão da sua história.

"A perspectiva é que haja uma retomada da demanda por operações ao longo deste ano. Este ano estimamos um desembolso entre R$ 70 bilhões e R$ 80 bilhões, mas com as perspectivas de crescimento de 2,5% a 3%, a demanda por investimento já vai começar a reagir", prevê Dyogo Oliveira. No ano passado, o BNDES emprestara R$ 10,75 bilhões com uma queda de 20% em relação ao ano anterior.

Em 2018, o banco vai devolver R$ 148 bilhões ao Tesouro. No início do segundo semestre, o BNDES deve devolver 100 bilhões ao Tesouro, além dos R$ 18 bilhões relativos ao Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT), o fundo que sustenta o seguro desemprego e o abono salarial.

"O desembolso provavelmente seja no inicio do segundo semestre. Agosto no máximo. Então, neste ano, o BNDES deverá devolver ao todo R$ 148 bilhões no total, somando o FAT e os R$ 30 bilhões que já foram devolvidos", explica Oliveira.

Privatização da Eletrobras

Em relação à capitalização da Eletrobras, o presidente do BNDES indicou que o banco aguarda análise para saber se inicia o processo imediatamente.

"O BNDES é responsável pela elaboração dos Estudos dos projetos de privatização. Estamos aguardando a conclusão da análise jurídica sobre o decreto para sabermos se podemos iniciar (o processo) já imediatamente ou se teríamos de esperar a aprovação do projeto de lei que está no Congresso sobre a Eletrobras", conta.

"Internamente, não chamamos de privatização, mas de capitalização porque o governo não vai vender as suas ações. O problema da Eletrobras é que não tem capital para investir. Então vai ampliar o seu capital com a entrada de novos acionistas. A União continuará como um sócio importante com influencia na gestão, mas perde o controle sobre a empresa que deixa de ser uma estatal", explica.

Nível econômico de 2014, só em 2022

Ao seu lado, o ministro do Planejamento Esteves Colnago prevê que o Brasil continuará a crescer pelos próximos anos acima de 2,5%, média considerada como o produto potencial do país atualmente.

"Nossa última estimativa oficial é de 3% bem alinhada com o mercado. O mercado está caminhando para 2,7% ou 2,8% que continua sendo um bom crescimento. Para crescermos mais, precisamos de algumas reformas como a da Previdência que demonstre a capacidade de solvência do Estado", indica.

"Vamos demorar uns três ou quatro anos para recuperar o mesmo nível de atividade de 2014 porque crescemos agora sobre uma base menor depois da recessão", prevê.

A atual tendência de aumento do dólar ainda não preocupa o governo. "Se o dólar ficar em torno de R$ 3,50, não vejo um problema maior. O que seria ruim é muita volatilidade", ameniza. "Se o dólar superasse os R$ 3,90 poderia representar um problema. Seria um cenário diferente, mas temos muito instrumentos para atuar. Em termos econômicos, estamos numa situação relativamente tranquila", garante.

Integração de capitais com a Argentina

Durante a visita à Argentina, onde também participou do seminário da CAF, o ministro Colnago procurou avançar junto ao ministro das Finanças da Argentina, Luís Caputo, na ideia de integrar os mercados de capitais de Brasil e Argentina.

"Queremos integrar os nossos mercados de bolsa, de emissão de títulos. O mercado brasileiro tem liquidez e pode ser um provedor de empresas argentinas em ações e títulos da dívida", avalia.

O ministro argentino aceitou avançar com a ideia durante o Brazil Investiment Forum em 29 e 30 de maio, em São Paulo.