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“De 8.500 brasileiros adotados por franceses, metade pode ter sido de maneira ilegal”, estima especialista

Por Elcio Ramalho

Brasileiros criados por famílias de franceses se reuniram no sábado (5), em Paris, durante a 2ª Jornada dos Adotados.  A ideia é dialogar com especialistas, conhecer seus direitos e principalmente ter acesso aos mecanismos de busca por seus familiares de origem.

A iniciativa do evento é da ONG Voix des Adoptés (Voz dos Adotados, em português) criada em 2005 por Céline Giraud, adotada no Peru. A Associação tem quatro estruturas espalhadas na França dedicadas especialmente às crianças adotadas no Brasil. Na segunda edição, 73 jovens adotados no país participaram da Jornada, mais do que o dobro do primeiro encontro, de acordo com a psicóloga judiciária do Tribunal de Justiça de São Paulo, Anna Christina Cardoso de Mello.

Voluntária da ONG no Brasil, ela veio à capital francesa falar sobre os casos das adoções ilegais e promover seu trabalho de ajudar adotados a encontrar seus familiares e desbloquear os processos na Justiça brasileira.

“Todos os adotados da Associação são maiores de idade. É o momento no qual a vontade de conhecer seus familiares e suas origens se concretiza. Na infância e na adolescência esse desejo também existe, é natural de toda pessoa, não apenas dos adotados, mas é na idade mais madura que se concretiza o desejo de conhecer o Brasil, do abrigo onde viveram, a família e, em primeiro lugar, a mãe”, explica a especialista, que trabalha com adoções há quase 30 anos.

O problema, segundo ela, é que muitas vezes esses jovens se encontram sem nenhuma referência. Uma vez desarquivado o processo no Brasil, começa um longo trabalho para localizar os parentes por meio de telefonemas, pesquisas na internet e até nas redes sociais. “Em muitos casos conseguimos localizar”, disse na entrevista à RFI Brasil.

“Adoção à brasileira”

Não há registro do número exato, mas segundo Anna Christina, pelo menos 8.500 crianças brasileiras foram adotadas por famílias francesas a partir dos anos 1980. A estimativa é baseada em dados da EFA (Infância e Famílias de Adoção, em tradução livre), uma federação de 92 associações de famílias adotivas na França e do Cadastro Nacional de Adoção (CNA), efetivado no Brasil somente em 2008, apesar de previsto no Estatuto da Criança e do Adolescente.

A dificuldade de estabelecer uma estatística precisa se deve ao longo período em que crianças do Brasil foram adotadas por famílias estrangeiras por meios ilegais e utilizando redes de traficantes de pessoas.

“Muitos estrangeiros foram, de certa forma, enganados, mas também tiraram proveito de alguns esquemas de tráficos de crianças. Pessoas se aproveitaram de um sistema menos controlado na época e pediam dinheiro para os estrangeiros”, afirmou.

Segundo Anna Christina, muitas famílias pagavam entre US$ 10 mil e US$15 mil para conseguir uma criança rapidamente. O esquema previa o registro da criança já com os nomes dos pais franceses, que alegavam às autoridades que ela havia nascido dentro de casa, como um parto anônimo.

A prática, conhecida como “adoção à brasileira”, se tornou um obstáculo para os que pretendem identificar seus familiares biológicos. Para esses casos, a Voz da Adoção pretende desenvolver um projeto envolvendo a criação de uma base de DNA para permitir o cruzamento de informações genéticas com o Cadastro Nacional de Pessoas Desaparecidas. “A pessoa que entregou seu filho para adoção pode deixar suas informações no Cadastro e também no Fórum mais próximo”, explica.

No entanto, a ONG tem dificuldade em identificar as origens das crianças que foram adotadas em situação ilegal ou pelas redes de traficantes. “O problema é que as famílias não sabem sequer o nome que foi dado para seus filhos”, lamenta.

De acordo com Anna Christina, nos últimos 15 anos no Brasil, predominou uma estimativa de que cerca de metade das crianças que vieram à França possam ter sido adotadas de maneira ilegal ou por meio de redes de traficantes até 2008.

Desde então, com a instalação do CNA, as adoções por casais internacionais ficou mais organizada. “Eles só adotam crianças que não encontram pais adotivos no Brasil, que são, em sua maioria, grupos de três irmãos ou mais, ou crianças maiores e adolescentes. Os brasileiros preferem crianças menores e até de dois irmãos”, afirma.

Apoio necessário para encontrar suas raízes

Anna Christina se diz confrontada a situações diversas de muitos brasileiros que vivem o processo, normalmente muito doloroso, de encontrar seus familiares de origem e voltar às raízes. Por isso, ela destaca a importância de contar com uma estrutura psicológica e de assistência jurídica, como oferecida pela ONG.

“Essas pessoas nem sempre podem fazer essa busca sem apoio. Muitos adotados têm o apoio da família e outros, não. Muitos até romperam com os pais adotivos. A Associação dá um suporte, explica e acompanha os jovens com ateliês e grupos de discussão. Vamos dar um suporte para procurar as origens. É aconselhável buscar esse apoio”, afirma.  

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