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Desistência de Joaquim Barbosa agita cenário eleitoral

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O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Joaquim Barbosa STF

Especialista diz que decisão beneficia Marina Silva e Geraldo Alckmin, mas todos os partidos estão atrás dos 10% dos eleitores que disseram que votariam no ex-ministro.


Raquel Miura, correspondente da RFI

No Twitter, nesta terça-feira (8), Joaquim Barbosa escreveu: “Está decidido. Após várias semanas de muita reflexão, finalmente cheguei a uma conclusão. Não pretendo ser candidato a Presidente da República. Decisão estritamente pessoal”.

A decisão de não disputar a eleição presidencial foi um banho de água gelada no PSB, que sonhava em ter papel de destaque neste pleito com o ex-ministro do Supremo Tribunal Federal. Por outro lado, a decisão favorece outros candidatos e atiça o ambiente eleitoral.

A avaliação entre os políticos é de que Barbosa tinha potencial para retirar votos de todos os candidatos já apresentados até aqui, da extrema-direita aos nomes mais à esquerda.

Considerado o 'outsider' da vez, um nome de fora da política tradicional, o relator do mensalão no STF apareceu com quase 10% já na primeira pesquisa Datafolha que trouxe seu nome entre os pré-candidatos, superando assim Geraldo Alckmin e Ciro Gomes. Aparecia empatado com Marina Silva em alguns cenários.

O cientista político Ricardo Ismael, da PUC do Rio de Janeiro, avalia que num primeiro momento parte dos votos de Joaquim Barbosa vão se dirigir a Marina Silva. Mas que a desistência beneficia ainda mais Geraldo Alckmin, do PSDB, que tem o desafio de crescer e alcançar dois dígitos das intenções de voto para se tornar um nome viável na campanha.

“O ex-ministro era um obstáculo muito grande ao crescimento de Alckmin. Portanto, sua saída do jogo é um alívio para os tucanos que teriam de competir com ele e de responder ao discurso anticorrupção de Barbosa, que atinge o PSDB e o PT”, afirmou Ismael.

“Agora, num curto prazo, acho que Marina pode crescer. Embora não tenha estrutura partidária, os dois vinham conversando e ela pode herdar parte dos votos dele”, acrescentou o especialista.

Reações diversas

O senador Randolfe Rodrigues, da Rede, lamentou a decisão de Barbosa, mas concorda que Marina Silva pode se beneficiar. “Nós tínhamos um profundo respeito pela candidatura dele, pois é negro, de origem humilde, um perfil novo e atuante. Mas acho que Marina se reafirma como candidata com a saída dele. Sempre sonhei com uma chapa Marina/Barbosa. Quem sabe ele ainda se convence a ser nosso vice”, disse o senador.

Para o deputado Marcus Pestana, do PSDB/MG, a desistência do ex-ministro é “positiva para Alckmin porque ajuda no nosso objetivo de evitar uma pulverização excessiva do bloco democrático e reformista”. Ele avalia que “Barbosa tirava votos de Bolsonaro, Lula, Marina, Ciro e também de Alckmin”.

O ex-governador de São Paulo manteve o discurso de candidato: “É uma perda. Precisamos de novas lideranças, uma maior participação. É uma decisão dele e temos que respeitar”.

Joaquim Barbosa vinha sendo cobrado a tomar uma decisão e, se fosse enfrentar de fato a campanha, a apresentar suas ideias, especialmente na área econômica.

Para o deputado do PT Carlos Zaratini, não dá para avaliar quem da esquerda ganha porque o ex-ministro não era de fato um nome colocado no páreo. “O PSB acreditou numa miragem. Joaquim Barbosa desistiu sem nunca ter sido candidato”.

Candidato alternativo

A decisão de Joaquim Barbosa de não ser candidato à presidência da República foi anunciada por ele mesmo por meio de uma mensagem no Twitter, por volta das dez horas da manhã, horário de Brasília. Antes disso, logo cedo, ele ligou para o presidente do PSB Carlos Siqueira comunicando-lhe a decisão. Siqueira lamentou, mas disse que respeita.

Um dos principais entusiastas da candidatura de Barbosa, o líder do PSB deputado Júlio Delgado não escondeu o desânimo. “A gente cumpriu o papel de apresentar uma alternativa ao povo brasileiro. Desde que Barbosa se filiou, nós fomos procurados por jornais e embaixadas do mundo inteiro, pelo prestígio dele”, afirmou Delgado.

“O PSB tem prazo aí de cinco meses para nos reorganizarmos, mas teremos, infelizmente, mais do mesmo nessas eleições com os candidatos que estão aí”, avaliou.

Depois de nove meses de negociação, Joaquim Barbosa se filiou ao PSB no dia 6 de abril, na reta final do prazo exigido pela Justiça Eleitoral como condição para se disputar as eleições deste ano. Foi uma cerimônia fechada e sem holofotes.

No início havia resistências dentro do partido, mas isso se quebrou com as pesquisas apontando que o ex-ministro tinha potencial de crescer e despontar como um dos favoritos. Era a chance de o partido de Eduardo Campos, que ficou em terceiro lugar em 2014 com Marina, ser protagonista na disputa de 2018.

Questões pessoais

Na primeira reunião de Barbosa com a cúpula do PSB que cuidaria das eleições, há duas semanas em Brasília, a legenda se mostrava entusiasmada. Nomes que tinham um pé atrás com o recém-filiado passaram a considerar que ele seria, no mínimo, um bom puxador de votos para candidatos da sigla.

Mas, ao contrário dos dirigentes do PSB, Joaquim Barbosa naquele encontro não escondeu suas dúvidas e angústias em tomar uma decisão. Ao mesmo tempo em que falou em encomendar estudos, chegou a confidenciar em reunião interna com o partido que era arrimo de família, que ao menos oito pessoas dependiam diretamente de sua renda. "A questão pessoal, familiar, tem um peso muito forte", disse depois aos jornalistas.