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Greve dos petroleiros no Brasil pode remobilizar caminhoneiros, diz sociólogo

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Caminhões bloqueiam a rodovia BR-116, em Embu das Artes, São Paulo, durante greve da categoria, em 28 de maio de 2018. REUTERS/Leonardo Benassatto

O sociólogo Glauber Sezerino, pesquisador do Instituto de Altos Estudos em Ciências Sociais (EHESS) de Paris e presidente da associação Autres Brésils, acredita que os caminhoneiros possam continuar a paralisação no Brasil. O “fôlego novo” viria a partir da greve dos petroleiros, prevista para começar nesta quarta-feira (30), com duração inicial de 72 horas.


“O chamado de greve dos petroleiros muda toda a configuração atual. Eles exigem uma mudança de preços na política da Petrobras, o que agradaria bastante aos caminhoneiros. Neste momento, a tendência no caso dos caminhoneiros autônomos é uma desmobilização, já que [Michel] Temer concedeu a liberação do pedágio para o eixo de caminhões vazios e abaixou o combustível. Mas é possível que os caminhoneiros que continuarem em greve se sintam reforçados pela paralisação dos petroleiros”, estima.

Sezerino explica que a categoria dos caminhoneiros é muito heterogênea, não possui unidade nem identidade, e que os petroleiros têm, historicamente, uma presença muito mais unificada e organizada coletivamente. “Existem autônomos com 1, 2 caminhões, você tem precários [que trabalham por encomenda] e você têm funcionários de transportadoras. Não existe identidade real entre os caminhoneiros.  As demandas são diferentes: preço do frete, carga horária e condições de trabalho”, exemplifica o sociólogo.

Caminhoneiros chilenos em 1972 : mera coincidência?

“O exemplo do Chile [em 1972] é emblemático. Uma greve levada a cabo pelos patrões obrigando os caminhoneiros a pararem desestabiliza o [então presidente chileno, Salvador] Allende e abre espaço para o golpe militar de 1973”, relembra Sezerino. O pesquisador pontua que, em 2015, a greve da categoria contra a política da então presidente Dilma Rousseff foi chamada pelas empresas de transporte, não pelos autônomos. “O que estava em pauta nessa época nem era o preço dos combustíveis, mas o abandono da lei do Motorista, sancionada pela Dilma, que dava mais direito aos trabalhadores autônomos e aos assalariados do transporte. As empresas não estavam contentes com essa legislação”, diz.

“Eles fizeram esse locaute [de lock-out, de origem inglesa, a expressão significa uma greve patronal] em 2015 – e temos depoimentos de caminhoneiros contando que eram pressionados a fazer a paralisação -, o que não é o caso hoje". Sezerino avalia que a verão 2018 da greve da categoria mistura o locaute com questões maiores como o custo do trabalho no Brasil.

“Não podemos falar de um papel histórico específico dos movimentos sociais da categoria dos caminhoneiros porque eles não têm uma identidade específica, como os petroleiros. São uma maioria de autônomos que passa 12 horas por dia na estrada, se comunicando muito pouco ou apenas por whatsapp, sem muito contato real com o resto da categoria. A tendência ao individualismo é muito grande”, avalia.

Sezerino analisa que, “não à toa”, a primeira pauta que surge da greve dos caminhoneiros não diz respeito a demandas coletivas da categoria no Brasil, mas é “uma reivindicação fiscal” e ligada ao preço do diesel.  

O poder de mobilização dos petroleiros

Glauber alerta para a força histórica dos petroleiros no Brasil. “É uma categoria altamente articulada, extremamente unificada e que decide fazer greves em momentos-chave do país que alteram, para o bem ou para o mal, a história política brasileira, como no período FHC [Fernando Henrique Cardoso]”, afirma.

“Os caminhoneiros sozinhos não conseguiram grande coisa. Os petroleiros, ao contrário, possuem uma pauta coletiva maior até que a própria categoria, com a discussão em torno da mudança da política de preços da Petrobras e de, ao contrário de seus principais acionistas, voltar a produzir [no Brasil] derivados do petróleo ao invés de importa-los dos Estados Unidos, como fazemos no governo Temer. É uma pauta, portanto, que tende a se alargar e a beneficiar outras categorias”, afirma Sezerino.

E as eleições?

O sociólogo analisa que a greve dessas categorias já afeta o processo eleitoral de 2018. “De saída, podemos dizer que a pauta econômica das eleições de outubro será muito provavelmente em torno dos combustíveis no Brasil. Isso já vinha se anunciando há algum tempo e, com essa greve, acaba virando um ponto nevrálgico do debate político, se houver eleições”, afirma.

“A situação evolui muito rápido no Brasil. Por exemplo, vemos Rodrigo Maia se distanciando ao máximo do Temer, para ver se ele assume no caso do Temer cair, para ficar de presidente interino até que novas eleições sejam liberadas. O fato da Comissão de Justiça do Senado ter aprovado a eleição indireta em caso de vacância da Presidência é um perigo concreto. Pouco provável, na minha opinião, mas concreto, não é impossível”, afirma o pesquisador.

O sociólogo lembra que, em caso de queda ou abdicação de Temer, “isso abriria um vácuo institucional capaz a levar o Congresso a decidir um presidente por ínterim”. Mas, para o especialista, o custo de não se fazer eleições “é muito caro”. “As elites brasileiras vão tentar realizar eleições até o fim”, acredita Sezerino. “A ideia é fazer as eleições com os candidatos existentes. Por isso, uma pauta importante de grande parte desta direita era tirar Lula desta corrida eleitoral”, diz.

“Eles precisam manter a imagem de uma democracia para o mundo. Acho pouco provável que não haja eleições. Mas não dá para ter certeza absoluta”, avalia o sociólogo, que conclui: “quem se beneficia é quem traz uma pauta mais populista. Não à toa, os dois pré-candidatos que mais se aproveitam desta crise são o [Jair] Bolsonaro de um lado e o Ciro [Gomes] de outro. Ambos se manifestaram imediatamente a favor da greve dos caminhoneiros. São pessoas fora do espectro político do Parlamento, que às vezes chegam com soluções rápidas e fáceis para debelar a situação”, diz.