rfi

Ouvindo
  • RFI Brasil
  • Último jornal
  • RFI em francês
Linha Direta
rss itunes

Argentina: campanha pró-aborto revela tensões entre governo e Igreja

Por Márcio Resende

O país do Papa está perto de legalizar o aborto de forma geral e gratuita. Na reta final de campanhas pró e contra o aborto, a Igreja argentina acelera a ofensiva contra a legalização. O objetivo é conseguir convencer os senadores que, no próximo dia 8, podem transformar o aborto em lei.

Márcio Resende, correspondente da RFI em Buenos Aires

Neste fim de semana, as missas convocaram os fieis a se manifestarem publicamente. E ao longo da semana, manifestações pró-vida terão o apoio da Igreja. Por trás dessa corrida contra o aborto, há uma tensão ainda maior: a do Papa contra o governo do presidente Mauricio Macri. O aborto coloca a Argentina em rota de colisão com o Vaticano, mas também revela os erros políticos do Papa na sua própria terra.

Se até o dia 14 de junho, quando a Câmara de Deputados deu meia sanção, a Igreja argentina e o Papa ficaram em segundo plano nesse debate pelo aborto, agora, na reta final, tentam recuperar o terreno. A Igreja não organiza manifestações, mas, em nota oficial, anunciou que apoia e até que encoraja ações de organizações civis a favor da vida e contra o aborto.

Neste domingo (29), os sacerdotes celebraram a Missa pela Vida e convocaram os fieis a se manifestarem publicamente contra o aborto. Muitos veem nessas homílias uma ordem direta do Papa. Na quarta-feira, manifestações em frente ao Congresso e, no próximo sábado, uma concentração grande de movimentos pró-vida, em sintonia com a mensagem do Papa de se pronunciar em defesa de toda vida humana.

Marcha de apoio

Nesta segunda-feira (30), às 19 horas, haverá uma marcha em frente à residência presidencial. Isso mostra como o governo argentino e a Igreja vivem um momento de máxima tensão. goipresidente Maurício Macri quem habilitou o debate, orientando os legisladores governistas a tratarem do assunto. Macri se diz contra o aborto e a favor da vida, mas deixou os seus legisladores livres de qualquer pressão para decidirem.

A Igreja, além de criticar o presidente Macri por abrir essa porta, desconfia que o governo, na verdade, agiu a favor do aborto na votação final, quando viu que a iniciativa seria derrotada. Até horas antes da votação na Câmara de Deputados, a legalização não tinha maioria, mas três deputados governistas mudaram de opinião naquela mesma noite. Nos bastidores da disputa, membros do governo admitem a tensão com o Papa. A ex-senadora María Eugenia Estenssoro disse que o Papa declarou a guerra política ao governo Macri por ter aberto essa porta, a mais sensível de todas para a Igreja.

Membros da própria coligação governista e analistas políticos afirmam que Macri só habilitou o debate porque sabia que o aborto seria derrotado na Câmara de Deputados. E a Igreja também acreditou nessa premissa que se mostrou errônea. Esse foi um dos erros do Papa. Outro erro do Papa foi nunca ter vindo à Argentina, sua terra natal, e ter mantido uma fria distância com o presidente Mauricio Macri.

Papa nunca visitou a Argentina

O Papa veio quatro vezes à América do Sul, mas nunca fez uma visita ao seu próprio país. É verdade que recebeu o presidente Mauricio Macri no Vaticano duas vezes, mas se manteve frio e sério enquanto recebia a oposição de forma sorridente. Os analistas acreditam que essa distância do Papa permitiu o debate pelo aborto. Se Francisco tivesse sido mais próximo, talvez nem Macri tivesse a iniciativa do debate nem os legisladores tivessem a facilidade de defender a causa.

Se o aborto for aprovado, o Papa sofrerá uma derrota política. Na sua cruzada cultural contra o liberalismo e a favor de projetar a Igreja católica no mundo, o Papa sofreu uma derrota com a legalização do aborto na Irlanda e agora pode sofrer outra na sua terra natal. E a Argentina ainda pode ser a primeira peça de um debate regional, justamente quando a Igreja tem um Papa sul-americano.

Eleições em Buenos Aires

Em 2015, a Igreja teve papel fundamental nas eleições na província de Buenos Aires que concentra 40% dos votos do país. Agora, esse papel pode se reverter contra o governo nas eleições do ano que vem. Por isso, a atual governadora Maria Eugenia Vidal mostrou-se contra o aborto assim que os sacerdotes endureceram o discurso. Semanas atrás, a governadora esteve com o Papa no Vaticano e teria ouvido duras críticas do Pontífice.

Pela primeira vez na história, existe um Papa argentino. E quando isso poderia supor uma sintonia favorável a ambos, a relação entre o Vaticano e o governo é péssima e dificilmente será revertida. Assim, politicamente, perdem os dois lados.

Após violências em Roraima, Brasil reforça segurança na fronteira com a Venezuela

Proibição do véu islâmico integral gera onda de protestos na Dinamarca

Destino preferido dos brasileiros na Europa, Portugal vive bolha imobiliária

Evo Morales inaugura nova sede de governo criticada pelo custo milionário

Itália: estudo mostra que população tem ideias equivocadas sobre imigrantes

Incêndios na Suécia atingem área equivalente a 35.700 campos de futebol

Presidente do Equador visita Reino Unido em meio a boatos sobre entrega de Assange aos britânicos