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Crise ameaça renovação da classe científica brasileira, diz Marcelo Viana, organizador do Congresso Internacional de Matemáticos

Por Márcia Bechara

O Rio de Janeiro vai virar a Capital Mundial da Matemática: a Cidade Maravilhosa será sede, entre 1° e 9 de agosto, do Congresso Internacional de Matemáticos (ICM), que, desde o final do século 19, outorga a cada quatro anos a prestigiosa medalha Fields, considerada o Nobel da Matemática. O RFI Convida hoje Marcelo Viana, coordenador do comitê organizador do congresso e diretor do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA).

*Para ouvir a entrevista na íntegra, clique na foto acima

O Brasil entrou em janeiro do ano passado na elite mundial da matemática, ao ser admitido como membro do seleto grupo da União Matemática Internacional (UMI), juntamente com a Alemanha, Canadá, China, Estados Unidos, França, Israel, Itália, Japão, Reino Unido e Rússia. Para o professor Marcelo Viana, a continuidade dos investimentos no setor é necessária para manter o Brasil nesta ponta de lança.

"O fato de termos sido promovidos é um reconhecimento do avanço que a Matemática teve no Brasil, sobretudo nos últimos 60, 70 anos, porque fomos um país que começou muito tarde os investimentos na  área da ciência, da pesquisa. É importante que um avanço tão extraordinário e tão rápido seja mantido", ressalta o professor, que completa: "trata-se do resultado de investimentos coerentes ao longo dessas décadas, inclusive porque precisamos de ir renovando a classe científica e oferecer boas condições de trabalho aos nosso jovens".

Marcelo Viana acha positivo que o Brasil não tenha perdido tantos talentos da Matemática para o exterior, embora destaque nomes como o de Artur Avila, brasileiro vencedor da medalha Fields, que, após uma passagem por Paris, foi recentemente contratado pela Universidade de Zurique, e o de Carlos Matheus, pesquisador do Centro Nacional da Pesquisa Científica da França, o CNRS, ambos ex-alunos do IMPA, que continuam parcialmente ligados ao instituto carioca.

"Felizmente, as condições de trabalho na Matemática brasileira ainda são atraentes o suficiente para manter talentos jovens no país ao longo dos anos", analisa. "Embora a Matemática seja menos afetada pela atual crise, porque a Matemática depende de investimentos menos pesados que as ciências experimentais, somos uma ciência barata, mas assim mesmo a crise desencoraja os jovens, sobretudo os melhores, que têm mais oportunidades no exterior. É uma ameaça que paira sobre a renovação da classe científica brasileira", diz Viana.

Machismo na Matemática?

Paralelamente ao Congresso Internacional de Matemáticos, acontece nesta terça-feira (31), também no Rio de Janeiro, o World Meeting for Women in Mathematics: uma das organizadoras é Carolina Araújo, pesquisadora do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA), e uma das laureadas do Programa “Para Mulheres na Ciência”, iniciativa da L’Oréal Brasil, em parceria com a UNESCO. O Instituto Serrapilheira, outra entidade de ponta na pesquisa matemática no Brasil, também financiou a participação de 19 mulheres matemáticas negras e duas indígenas do país, que vão discutir as disparidades de gênero nessa disciplina. Será que ainda existe preconceito com as mulheres no terreno das ciências exatas? 

"Eu não diria que existe preconceito. Acho que estamos aprendendo que a presença mintoritária das mulheres em Ciências e na Matemática é fruto de uma combinação de fatores", explica o professor. "Em particular", continua ele, "de questões sócio-culturais. Por exemplo, na Olimpíada Brasileira de Matemática, que cobre 18 milhões de crianças em todo o Brasil, verificamos que, ao longo do tempo, o número de finalistas mulheres vai diminuindo. Gradualmente, as meninas vão ficando menos bem-sucedidas. Isso não pode ser porque elas vão ficando menos inteligentes... Certamente, é porque existem fatores que encorajam mais os rapazes do que as meninas a seguirem na Matemática", afirma Marcelo Viana.

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