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Atentado a Bolsonaro e destino dos votos de Lula marcam semana decisiva

Por RFI

A 27 dias do primeiro turno das eleições, os comitês dos candidatos à presidência da República refazem estratégias diante de dois fatores que reforçam o cenário de imprevisibilidade dessa disputa: o impacto da facada em Jair Bolsonaro (PSL) e o destino dos votos de Lula.

Alguns coordenadores de campanha avaliam que Bolsonaro já estava com um pé no segundo turno e que esse atentado pode ajudá-lo a assegurar uma das vagas na segunda etapa das eleições. Mas ninguém aponta com certeza o peso disso nos eleitores.

Bolsonaro, que lidera as pesquisas com pouco mais de 20%, levou apoiadores em alguns estados para as ruas, em manifestações por sua recuperação. Mas o militar também tem a maior rejeição entre os candidatos e perde nas simulações de segundo tuno para Marina Silva (Rede), Ciro Gomes (PDT) e Geraldo Alckmin (PSDB), empatando com Fernando Haddad (PT).

Certo é que o episódio aumentou a segurança da Polícia Federal em torno dos candidatos a presidente – eram 80 agentes nessa função e esse número pode chegar agora a 130. E politicamente, no curto prazo, o caso reduziu os ataques de adversários a Bolsonaro.

Trégua não deve durar

O PSDB chegou a trocar a propaganda no rádio e na TV retirando as críticas mais pesadas ao rival militar. Até quando vai esse armistício, não se sabe. Em 2014 a morte de Eduardo Campos deu trégua de alguns dias.

Por outro lado, os rivais de Bolsonaro tentam reagir a esse cenário. Ao mesmo tempo em que prestam solidariedade e condenam o ato, frisam que não se pode apenas vitimizar o ex-capitão do Exército e que a postura dele, que fala no armamento dos cidadãos  e tem posições polêmicas com relação a minorias, contribui para o acirramento dos ânimos. "A violência é, sempre foi o pior caminho para atacar a violência. A vítima pode ser qualquer um de nós. Pode ser sobretudo aqueles que acham que jamais seriam vítimas. Mais que nunca, o país precisa de pacificação. O ódio que divide o país cresceu com o PT e fez prosperar radicais de um lado e de outro. Isso não serve a nenhum brasileiro de bem", afirmou Geraldo Alckmin, alfinetando indiretamente Bolsonaro e diretamente o PT.

Ciro Gomes, que cresceu na última pesquisa Ibope e  agora empatado com Marina em segundo lugar (12%), diz que vai continuar mostrando suas diferenças com Bolsonaro: "não, não muda. Nós precisamos separar bastante bem aquilo que é uma solidariedade pessoal, de ser humano, uma solidariedade cristã. Eu imediatamente expressei isso, porque eu quero Jair Bolsonaro vivo, são, salvo, inteiro. Mas a política é outra coisa. Nós não concordamos em absolutamente nada com que ele diz, pensa ou representa. Mas não quero que isso seja ferido na violência. Isso eu quero dar como exemplo de como todos nós da nação brasileira devemos nos comportar".

PT ainda tenta validar candidatura de Lula

No PT a avaliação interna é de que a ação de Adélio Bispo, o homem que atingiu Bolsonaro com uma faca durante ato de campanha em Juiz de Fora, em Minas Gerais,não terá maiores impactos nas pretensões do partido, pois eles disputariam fatias diferentes do eleitorado.

O que não significa que o partido de Lula esteja coeso. Apoiadores de Fernando Haddad acham que já passou da hora dele assumir de vez o rótulo de candidato a presidente, mas outros acham que dá para esticar um pouco mais a corda. Tanto que o PT chegou a pedir mais prazo ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para indicar o substituto do ex-presidente, barrado pelo tribunal por causa da condenação em segunda instância na Lava Jato.

No fim da noite desse domingo, a presidente do TSE, ministra Rosa Weber, decidiu enviar ao Supremo Tribunal Federal o recurso de Lula. Porém ela negou efeito suspensivo, ou seja, ele não é candidato e o PT terá de cumprir o prazo estipulado pela corte, que vence nesta terça-feira, para fazer a troca da cabeça de chapa. Numa outra decisão, o ministro Roberto Barroso informou que o PT poderá perder o horário no rádio e na TV se insistir em apresentar Lula como candidato nas peças publicitárias.

Haddad é o maior prejudicado

O cientista político Ricardo Ismael da PUC Rio diz que essa estratégia do PT tem prejudicado Fernando Haddad, que na última pesquisa Ibope apareceu com 6%, em quinto lugar. "A dúvida agora é quem vai herdar os votos de Lula. Há uma demora muito grande no PT em fazer essa substituição, em realmente colocar Haddad como candidato e começar a trabalhar a candidatura dele. Ele ainda é o candidato mais desconhecido em nível nacional, o que o prejudica muito. E ainda há confusão: se é Lula, se é Haddad.  E isso o tem prejudicado num momento em que estamos a um mês da eleição e outros candidatos estão tentando herdar esses votos", disse o analista.

A atitude dúbia do PT, mesmo após a decisão do TSE que não reconheceu o parecer do Comitê de Direitos Humanos da ONU, evidencia o forte peso de Lula no eleitorado. E as pesquisas mostram até aqui que Lula e PT não têm a mesma força no voto. Como o ex-presidente apareceu com quase 40% nas últimas pesquisas que o incluíram na disputa e como é alto também o número de brancos, nulos e indecisos, o destino dos votos de Lula pode definir um dos nomes do segundo turno.

A briga por esses votos se dá principalmente entre os nomes considerados mais à esquerda: Marina, Haddad e Ciro. Esse último, pela pesquisa Ibope, cresceu justamente no nordeste, reduto forte de Lula. Marina ficou estacionada. Ela se apresenta como um nome da conciliação e tem adotado um discurso mais crítico com relação a Lula e ao PT. "Ninguém pode tirar o peso do voto do eleitor. Ele é que vai decidir. E essa campanha tem se mostrado muito imprevisível. Nós e os eleitores temos aprendido muito. Em 2014 foi uma agressão política. Agora tivemos a morte de Marielle Franco, no Rio de Janeiro, depois os tiros contra a caravana de Lula e agora a facada em Bolsonaro. Precisamos mostrar que, diante da violência, podemos construir a paz", afirmou a candidata da Rede.

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