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"Bolsa Família é grande aliado para quem deseja fazer ajuste fiscal no Brasil", afirma Marcelo Neri

Por Márcia Bechara

A Fundação Getúlio Vargas acaba de divulgar dados inéditos sobre o aumento da pobreza e da desigualdade nos últimos quatro anos, um “levantamento sobre quem perdeu mais durante a recessão e depois dela”. São 6,3 milhões de novos pobres no Brasil, segundo a pesquisa “Qual foi o impacto da crise sobre a pobreza e a distribuição de renda?”, que acaba de sair do forno do professor Marcelo Neri, fundador do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas. Ele é o convidado desta terça-feira (11) do  RFI Convida.

Para o professor Marcelo Neri, “os grandes perdedores da crise são as pessoas mais pobres”.  “Foi uma recessão longa, uma saída da crise lenta, mas quando se leva em conta a desigualdade de renda vê-se que o comportamento do bem-estar ainda é pior do que o comportamento da renda média. O nível é o mesmo de 2012, uma década perdida em termos de bem-estar”, afirma.

A pesquisa do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas fornece um quadro geral dos últimos 30 anos, “mas o foco é nos últimos quatro anos, a partir do final de 2014 até meados de 2018”, conta Neri. Segundo ele, a pobreza brasileira, que vinha caindo desde o começo dos anos 1990, sofreu um revés e aumentou em 33%. “A desigualdade e a renda também seguem nessa trajetória”, explica.

“Foi uma crise muito forte, que afetou todos os setores da sociedade, e mais o Norte e o Nordeste do país, que são as áreas mais pobres. Pessoas com baixa educação também foram mais afetadas, assim como chefes de família, que perderam 10% de poder de compra só nos últimos três anos. Os jovens foram também os grandes perdedores dessa crise. Todos sofreram, mas os mais pobres sofreram mais, e isso dificulta a própria retomada da economia brasileira. Se você tem um cuidado especial com os pobres, isso traz um benefício macroeconômico, em termos de retomada do crescimento”, relata o pesquisador.

Segundo ele, todos os segmentos brasileiros perderam. “A classe C nem mudou tanto de tamanho, porque teve gente de classes mais altas que desceu para essa classe média baixa, ao mesmo tempo que pessoas dessa classe C caíram no desemprego e na pobreza, foram rebaixados”, detalha.

Bolsa Família poderia ter sido "aliado" para combater a crise

Uma das conclusões presentes no estudo é que, segundo o próprio relatório final da pequisa, "uma lição da crise atual é olharmos primeiro para os mais pobres, buscando protegê-los, e assim preservando o movimento da economia como um todo”.

"O Brasil desenvolveu ao longo dos anos uma tecnologia de combate à pobreza, cujo melhor exemplo talvez seja o Bolsa Família, um programa que cobre os 25% mais pobres do Brasil. É um programa de transferência de renda condicionada, que custa pouco, apenas meio ponto percentual do PIB. De alguma forma, utilizamos pouco o Bolsa Família nessa crise. O Brasil deve não só olhar para outras experiências, mas também para nossas próprias experiências sociais", afirma Neri.

Segundo o professor, “o Bolsa Família é um grande aliado para quem deseja fazer ajuste fiscal no Brasil”. “É um programa que dá muito resultado em termos de combate à pobreza e custa pouco. O Bolsa Família é um aliado, não só dos pobres, mas das contas públicas, que estão numa situação bastante delicada no país”, diz.

Consequências políticas

Segundo Marcelo Neri, existem consequências políticas do empobrecimento da população brasileira. “A pesquisa revela que em todos os anos eleitorais, e acreditamos que também neste ano agora, a pobreza caiu no Brasil, e caiu bastante, em média 8%. Existe um certo ciclo político eleitoral que gera um ganho em ano de eleição e uma piora desses indicadores em ano pós-eleitoral”, avalia.

“De alguma forma, a classe política tenta fazer uma sintonia fina nos indicadores sociais, dando reajustes ao salário mínimo, aumentando determinados tipos de gastos, e a pesquisa confirma esse padrão de ciclo político oportunista no Brasil, em sintonia com o ciclo eleitoral”, explica.

Para Neri, a projeção é que a pobreza deve cair em 2018 por causa do ciclo político, e depois deve voltar a aumentar durante três anos e meio consecutivos. “Mas as projeções são condicionadas. É preciso fazer o dever de casa, as reformas que o país precisa, como a da Previdência, buscar um aumento da produtividade, mas devemos fazer isso de uma maneira inclusiva, olhando para a base da distribuição, tentando fazer chegar na base os ganhos de produtividade, tentando poupar os mais pobres do ajuste fiscal na medida do possível”, diz. “O Brasil sempre se caracterizou por fazer escolhas parciais. É preciso que a economia e o social andem juntos”, afirma.

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