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“Mulher moderna não cabe em figurino de primeira-dama”, diz Ana Estela Haddad

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Ana Estela Haddad (à esquerda), ao lado do marido, o candidato Fernando Haddad, do Partido dos Trabalhadores, e a candidata a vice na chapa do PT, Manuela Ávila (dir.)após coletiva em São Paulo, em 7 de outubro de 2018. REUTERS/Paulo Whitaker

Ana Estela Haddad, mulher do candidato do Partido dos Trabalhadores ao Palácio do Planalto, Fernando Haddad, conversou com a RFI após a coletiva concedida por seu marido no Hotel Pestana, no centro de São Paulo, neste domingo (7) logo após a apuração dos votos do primeiro turno das eleições brasileiras de 2018.


Uma das idealizadoras do Programa Universidade para Todos, o Prouni, Ana Estela Haddad, ou a “Tê”, como o candidato Fernando Haddad se refere carinhosamente a ela, participou ativamente da implementação deste projeto-ícone da gestão de Haddad no Ministério da Educação de Lula. Ana, graduada em Odontologia pela USP, também é conhecida por seu trabalho como diretora de gestão no Ministério da Saúde, entre 2005 e 2010. Cansada, logo após a maratona deste domingo (7), ela conversou com a reportagem sobre temas que marcaram a campanha.

RFI Brasil – Como você e sua família saem deste primeiro turno, pontuado por uma série de ataques?

Ana Estela Haddad - Foi um processo difícil, desafiador, mas eu acho que o resultado, dado o contexto em que estamos vivendo, é, até aqui, vitorioso. Conseguimos nos colocar no segundo turno, frente a todos estes ataques, que não são triviais, e que são feitos de uma forma velada, subterrânea, que dificulta muito, a gente demora para perceber o que está acontecendo.  

RFI Brasil – Em algum momento deste domingo você chegou a duvidar que a candidatura de Fernando Haddad pudesse dar certo?

Ana Estela HaddadOlha, eu evito e evitei previsões. A gente vai acompanhando as pesquisas, os trackings, às vezes vê uma distorção aqui, outra ali, às vezes o nosso tracking bate com o que as pessoas estão divulgando, às vezes não... Agora, a gente vinha numa curva ascendente, importante, antes dos ataques [de fake news, sobre a candidatura de Haddad, perpetrados via WhatsApp pela militância de Jair Bolsonaro]. Os ataques caracterizaram uma certa inflexão, isso é perceptível. Isso afetou indecisos.

RFI Brasil – Alguma coisa te choca ou você esperava esse tipo de ataque?

Ana Estela HaddadChoca... Choca muito essa forma de operar, o discurso, as coisas que são colocadas como bandeiras [pela campanha de Bolsonaro], são coisas muito complicadas, muito difíceis da gente lidar, mas estão aí...

RFI Brasil – Ao contrário da mulher de Jair Bolsonaro, você está sempre apareceu em público ao lado de Fernando Haddad, em todos os momentos da campanha. Que papel você imagina desempenhar neste segundo turno?

Ana Estela HaddadNão tenho nenhuma ideia, não estou pensando nisso ainda. O que eu procuro fazer é acompanhar, estar presente e próxima da coordenação da campanha, para acompanhar as avaliações que são feitas, pela vontade de estar presente e participando.

RFI Brasil – Aqui na França, o posto de primeira-dama criou bastante polêmica com Brigitte Macron. Como você vê a ideia de, talvez, se tornar a primeira-dama do Brasil?

Ana Estela HaddadNão penso muito sobre isso porque eu acho que, talvez, esse título, esse estereótipo aí colocado, está um pouco fora de lugar, fora da contemporaneidade. A mulher moderna é mais do que isso. Na verdade, acho que estamos mais para um processo de desconstrução deste espaço do que outra coisa. Minha participação e a forma que eu construo minha participação está muito ligada aos interesses que eu tenho, às participações que eu já tive na minha trajetória de políticas públicas, por acreditar nisso, por gostar disso, mais do que pensar numa representação como essa. Não sei se tenho essa resposta. Acho que a polêmica [sobre o cargo de primeira-dama] talvez venha justamente daí, a mulher moderna já não cabe muito nesse figurino.

RFI Brasil – Por que, na sua opinião, Bolsonaro cresceu tanto nas pesquisas após as manifestações do #EleNão realizadas por milhões de mulheres em todo o mundo?

Ana Estela HaddadAcho que talvez a psicologia explique um pouco isso: aquilo que a gente mais nega é o que fica mais presente. Não sei também, não tenho essa resposta. Mas é inquietante, é uma coisa que me surpreende. O movimento foi, de fato,  muito forte. As imagens falam por si, em todo o Brasil, foram 300 cidades. Muita gente foi pra rua. Mas estamos aí e o resultado do primeiro turno mostra que uma boa parte da sociedade compactua com isso.