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Opinião: Brasileiros viraram reféns de minorias extremistas que polarizaram a sociedade

Por Alfredo Valladão

As urnas falaram, mas os eleitores brasileiros continuam confrontados com uma escolha impossível. Por um lado, um populista com um referencial de direita extrema, que acha que vai resolver tudo pelo autoritarismo e a violência. Do outro, a volta ao poder de um partido populista de esquerda, principal responsável pela pior crise moral, econômica e política da história do país. Um partido que nunca reconheceu os seus erros passados e não esconde uma sede de revanche.

O drama é que a grande maioria dos brasileiros – gente tolerante e sensata que acredita nos valores democráticos – viraram reféns de duas minorias extremistas que conseguiram polarizar a sociedade. Amigos brigam com amigos, famílias se dividem, ninguém mais fala de programas políticos ou visões de futuro. O que conta é liquidar o adversário político, visto como inimigo absoluto. É o “Eles contra Nós”, também explorado pelos governos do PT, onde não há espaço para consensos democráticos. Resultado: não se vota mais em favor de alguém, mas contra. Haddad e Bolsonaro acumulam as maiores taxas de rejeição.

Mas a surpreendente ascensão-relâmpago de Jair Bolsonaro – há décadas um inexpressivo parlamentar do baixo clero – tem muito a ver com o monte de escombros deixado pelos governos petistas e a estratégia de terra arrasada do ex-presidente – hoje presidiário – Lula da Silva. Na verdade, as forças políticas tradicionais já estavam minadas pela incompetência e a corrupção. E Lula só acelerou a desagregação.

No afã de se safar da cadeia e tentar ganhar mais uma eleição presidencial, ele tudo fez para desidratar os partidos e os candidatos da esquerda, do centro e da direita. Instrumentalizou o seu próprio partido para que só sobrasse o PT e o candidato mais extremista da direita: um espantalho tão assustador que seria fácil vencê-lo.

Campanha acentuou ódio contra o PT

Mas o tiro saiu pela culatra. A Justiça brasileira não se deixou intimidar e confirmou a inelegibilidade de Lula. A campanha lulopetista, propondo soluções econômicas e sociais extremas e radicais, aumentou ainda mais o medo, a rejeição – e até o ódio – do PT. O pouco carisma de Fernando Haddad fez o resto.

O misógino e homofóbico Jair Bolsonaro acabou tornando-se o único depositário do forte sentimento antipetista que corre no eleitorado. Além do mais, aproveitou a exasperação da população com o aumento insuportável da violência urbana e da criminalidade.

Não é possível continuar tolerando 64.000 homicídios por ano e a violência quotidiana, com governos que nas últimas décadas nunca foram capazes de tratar esses problemas seriamente. E ninguém mais aguenta a decadência da saúde, da educação, dos transportes, e a herança das gestões petistas: uma crise econômica que não acaba mais.

Sem nem ter que fazer uma campanha de verdade e com proclamações populistas e promessas de resolver tudo a tiros, Bolsonaro encaçapou boa parte desse desespero coletivo.

Escolha binária

As pequenas minorias extremistas dos dois lados conseguiram transformar o pleito numa escolha binária: ou a volta da ditadura militar dos anos 1970, ou o caminho para a ditadura militar e a catástrofe social e econômica da Venezuela. Claro, o Brasil está longe disso. Para que um desses cenários aconteça seria preciso mandar nas Forças Armadas, como o tenente-coronel Hugo Chavez ou os generais de 1964. Hoje, os militares brasileiros não estão a fim de pegar essa batata quente ou de tomar decisões anticonstitucionais.

E o Brasil é agora um país infinitamente mais diversificado – econômica- e politicamente – com instituições democráticas razoavelmente sólidas e grupos de interesse e corpos intermediários poderosos. O maior perigo seria que a polarização política criada pela eleição e as redes sociais acabe escorregando para a violência. Mas a boa notícia é que a grande maioria está cansada desse radicalismo todo, mesmo se o segundo turno será feroz.

Mas, no final das contas, a tarefa mais ingrata do novo presidente não vai ser enfrentar uma pseudo-guerra civil, mas como encontrar um jeito de resolver os problemas urgentes do país. E governar com um Congresso fragmentado e sempre afundado no “fisiologismo”...

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