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“Há uma crença de que um regime mais militarizado colocaria ordem no Brasil”, diz historiadora da USP

Por Daniella Franco

Em um momento de extrema polarização e alto conservadorismo na sociedade brasileira, o período do regime militar no Brasil (1964-1985) vem sendo evocado com saudosismo por parte da população. O próprio candidato da extrema direita à presidência, Jair Bolsonaro, não descarta a possibilidade de recorrer a uma intervenção militar, se for eleito. Em entrevista à RFI, Natália Batista, doutoranda Em História Social da USP, afirma que o fenômeno se deve à “esquizofrenia de memórias” sobre a ditadura no país.

“A partir de 2013, com as manifestações de massa contra o Partido dos Trabalhadores, um pacto que existia entre os partidos que fizeram a transição democrática – principalmente o PT e o PSDB – se quebrou. Passou a ser comum bandeiras de apoio à ditadura, cartazes dizendo que a ditadura matou pouco. A própria fala do Bolsonaro, quando diz que o erro da ditadura foi ter torturado e não matado, vai fomentando esse clima (…) de deslegitimação plena deste período”, analisa a historiadora.

Natália Batista é uma das organizadoras do livro “A Ditadura Aconteceu Aqui – A História Oral e as Memórias do Regime Militar Brasileiro”, com narrativas pessoais de diferentes grupos sociais que viveram durante o regime militar no Brasil. A historiadora veio a Paris ministrar o seminário “Por uma História Social das Memórias da Ditadura Militar Brasileira”, realizado no Instituto dos Altos Estudos da América Latina (Iheal), da Universidade Paris 3 - Sorbonne Nouvelle.

Para ela, a “esquizofrenia de memórias” de parte dos brasileiros em relação à ditadura é uma junção de valores autoritários e de um desconhecimento da História. Segundo a doutoranda, essas ideias ganharam força quando passaram a ser validadas por representantes ou líderes, a exemplo da recente declaração do presidente Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli, que afirmou que prefere se referir à tomada do poder pelos militares em 1964 como “movimento de 1964”. Ou de Jair Bolsonaro, que revelou em sua entrevista no programa Roda Viva, em julho, na TV Cultura, que seu livro de cabeceira é “A Verdade Sufocada – A história que a esquerda não quer que o Brasil conheça”, escrito pelo coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o primeiro militar reconhecido como torturador pela Justiça brasileira.

“Parte da população expressa esse relativo saudosismo da ditadura com argumentos ingênuos. ‘Não tinha corrupção’, sendo que a imprensa estava completamente censurada. As pessoas acreditam também que, na época, tinha segurança na rua, mas havia gente morrendo dentro das prisões. E daí há uma crença de que um regime mais militarizado colocaria ordem no Brasil”, diz.

Estado falhou em resgatar a história

A historiadora também defende que outros problemas sobre memórias distorcidas em relação à ditadura se perpetuam porque o Estado falhou em resgatar a história e punir os crimes praticados durante o período, diferentemente do que aconteceu em outros países sul-americanos, como Chile e Argentina. “No Brasil, o regime acabou em 1985, mas a Comissão da Verdade começou em 2012”, lembra.

Segundo ela, o revisionismo ou o negacionismo por parte dos brasileiros em relação à existência ou à gravidade da ditadura acontecem porque a população é tradicionalmente conservadora. “A minha hipótese é que muitas pessoas não defendem valores autoritários só agora: elas já os defendiam, na época da ditadura, e os continuaram defendendo. Eu não consigo visualizar uma população completamente democrática que mudou de ideia agora. Existem pessoas que, de fato, não compartilham com valores democráticos por uma série de fatores. Nós temos um problema educacional grave, nós temos uma demanda da vida material dos sujeitos que, muitas vezes, estão muito mais preocupados com como ganhar sua sobrevivência. E isso faz com que questões de fundo importantíssimas, como a própria democracia, deixem de ser assuntos relevantes”, ressalta.

Para Natália Batista, essa falta de valores democráticos na sociedade brasileira ajuda a propagar o desejo por um governo ultraconservador ou militar. Mas a historiadora acredita que esse posicionamento poderá mudar no futuro. “É fácil propor um livre pensar quando os valores autoritários não estão impregnados nos sujeitos. Acredito que só conseguiremos superar essa fase com novas gerações, que consigam ter maior acesso sobre o que foi a História, a escolas, centros culturais, a sobre o que é a democracia e o valor dela”, conclui.

Assista à entrevista completa no vídeo abaixo:

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