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Nacionalismo ambíguo de Bolsonaro entrará em conflito com visão de Guedes, dizem economistas

Por Marcos Lúcio Fernandes

Os dois candidatos ao segundo turno da eleição presidencial no Brasil, Jair Bolsonaro, do Partido Social Liberal (PSL), e Fernando Haddad, do Partido dos Trabalhados (PT), têm propostas bastante diferentes para a economia. A RFI conversou com economistas que avaliaram os programas dos dois políticos. Eles apontam incoerências e o debate insuficiente a respeito de questões fundamentais para o futuro do país.

Para o francês Philippe Crevel, fundador da Sociedade de Estudos Estratégicos Econômicos e especialista na América Latina, Bolsonaro terá dificuldade de conciliar suas posições liberais, nacionalistas e protecionistas, mesmo no seio de seu próprio partido.

Ele é mais liberal. Adepto do congelamento das despesas públicas, favorável às privatizações. Mas ele também é nacionalista e protecionista, alguns de seus conselheiros não são, e portanto há uma certa ambiguidade no programa econômico que ele poderia colocar em ação”, diz.

O francês Philippe Crevel acredita que Bolsonaro terá dificuldade em conciliar discurso protecionista com visão liberal de seu conselheiro, Paulo Guedes Cercle de l'Epargne

O argentino Carlos Winograd, professor da Escola de Economia de Paris, tem a mesma opinião e acredita que as divergências de visão política podem causar conflitos entre Bolsonaro e seu conselheiro, o economista Paulo Guedes.

“Muitos setores da plataforma política e social do candidato do PSL não são compartilhados por muitos eleitores e parte da população brasileira. Mas o mercado está vendo no Paulo Guedes uma figura de maior abertura para o mercado e de muitas reformas que o Brasil precisa”, afirma Winograd. “Agora, a pergunta é: entre o discurso político do Bolsonaro, que é bastante arcaico, antimercado, nacionalista, e uma visão mais moderna de mercado, com políticas ativas, sociais, de educação, ainda vamos ver se essa combinação é politicamente viável”.

Proposta de redução de ministérios é apenas simbólica

De acordo com Crevel, a proposta de redução de ministérios de Bolsonaro serve somente para agradar o eleitorado. “É apenas simbólico. A redução de ministérios, em todos os países, é proposta em todas as eleições, vários candidatos insistem nessa tecla, mas eles sempre têm dificuldade de realizá-la”, declara. Segundo a análise de Crevel, não é isso que vai reequilibrar o orçamento e reduzir as dívidas. “É só para dar um gostinho para a opinião pública, dizendo ‘vamos acabar com ministérios, vamos reduzir o salário dos ministros’.”

"Capitalização de aposentadorias é um risco enorme"

Já o sistema de capitalização da aposentadoria, que também faz parte do programa do candidato, deve ser visto com cautela, afirma Crevel. “Outros países tentaram implantar o sistema de aposentadoria por capitalização, como o Chile, mas isso não deu os resultados esperados. Depender do mercado financeiro para financiar a Previdência é muito perigoso. Mas contar apenas com a contribuição também é. Seria bom uma mistura dos dois, ao invés de um ou outro de forma exclusiva. Tentar implantar um sistema de capitalização das aposentadorias seria uma ruptura, há um risco enorme, e poucos países se autorizaram a fazer isso”.

Debate sobre economia foi ofuscado por discussões sobre violência e corrupção

Já Haddad, que aposta em propostas que vão na direção oposta, teve, segundo Crevel, seu programa econômico ofuscado por uma disputa eleitoral focada apenas em respostas simplistas para questões urgentes, como o desemprego e o aumento da violência. Ele lembra que o candidato do PT é pela interrupção das privatizações, pelo fim do congelamento das despesas públicas, assim como pela redução das dívidas e pelo retorno ao pleno emprego, medidas contrárias às de Bolsonaro.

“Mas é preciso levar em conta que o contexto econômico no Brasil é muito complicado, saímos de uma recessão violenta, com dois anos sombrios para o Brasil. Então, a situação econômica é muito delicada”, lembra. “As medidas puramente econômicas não contaram de verdade no debate. Foi somente a segurança, a luta contra a corrupção, mais do que privatizar ou não privatizar”.

Winograd, por sua vez, acredita que as discussões em torno da privatização tomaram o lugar de debates mais importantes para a economia brasileira. “Acho que o Brasil tem hoje inconsistências macroeconômicas em termos de sustentabilidade da economia, com crescimento da dívida e desequilíbrio fiscal. Mas o Brasil não está discutindo problemas sérios de aspectos microeconômicos”, diz.

O economista Carlos Winograd analisou as propostas dos candidatos à presidência para superar a crise no Brasil. Arquivo Pessoal

O especialista afirma que existe uma necessidade de reformas fundamentais em setores da microeconomia. “O Brasil está na posição 100 nos índices de qualidade de infraestrutura. Não é só a plataforma de sustentabilidade econômica e fiscal, mas também a necessidade de profundas melhoras de caráter microeconômico da regulação da infraestrutura, de transporte, de portos, que ficam um pouco abandonadas na urgência macroeconômica”.

O segundo turno das eleições presidenciais de 2018 ocorrerá no dia 28 de outubro.

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