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“Brasil virou um território da burrice”, diz escritor Bernardo Carvalho

Por Márcia Bechara

O RFI Convida conversou com o escritor, tradutor e jornalista brasileiro Bernardo Carvalho, dono de uma obra prolífica, com uma dezena de romances, mas também com contos e peças de teatro, uma escritura duas vezes premiada com o Jabuti, duas outras com o Portugal Telecom, e traduzida para mais de dez línguas. A editora francesa Métailié lançou em setembro na França mais um de seus romances premiados, o Simpatia pelo Demônio, ou em francês, Sympathie pour le Démon.

*Para ver a entrevista na íntegra, clique no vídeo abaixo

Na última vez que o escritor Bernardo Carvalho esteve nos estúdios da RFI Brasil, ele falou sobre Simpatia pelo Demônio, que na época, em 2016, acabava de ser lançado pela Cia das Letras no Brasil. O romance conta, entre outras tramas, a história de um brasileiro que, enviado para uma zona de conflito, terá que negociar com um grupo extremista islâmico. Carvalho afirmou não saber exatamente como o livro será recebido pelo público francês.

“Recentemente tive um encontro com livreiros em Lyon, e tive que levantar e apresentar o livro resumidamente, o que é muito difícil. Quando voltei para a mesa, já não havia mais diálogo possível entre eu e eles”, conta o escritor. “Fiquei surpreso, já que os atentados de Paris fazem parte da estrutura narrativa do romance, mas um dos livreiros me disse que isso ‘não deveria ser falado aqui’. Sobretudo, suponho, por um estrangeiro”, diz Bernardo Carvalho.

“Eu não entendi direito, mas talvez eu não pudesse mencionar os atentados sendo um brasileiro. Isso já havia acontecido anteriormente comigo em Mongólia, uma ficção, houve uma espécie de resistência que questionava a legitimidade de um brasileiro escrevendo sobre a Mongólia. Se fosse um inglês, um francês, um italiano, provavelmente não haveria problema”, reflete. “O brasileiro está condenado a escrever sobre o que o estrangeiro quer que o Brasil seja”, avalia Carvalho.

Literatura brasileira é muito pouco lida fora do país

Embora seja traduzido para mais de 10 línguas, Bernardo afirma que existe uma “ilusão” em relação ao público estrangeiro que lê literatura brasileira. “Se o público no Brasil já é muito pequeno e esteja retrocedendo, o público fora do Brasil é mínimo. Na verdade, a literatura brasileira é pouquíssimo lida fora do país”, constatou.

“A França era uma espécie de ilha, de paraíso. Era um lugar que havia um interesse pelo outro, pelas diferenças, pelas outras literaturas, que era único no mundo”, diz o escritor. “Mas ontem me disseram que 74% dos direitos de autor estrangeiros comprados na França são americanos”, diz. Carvalho acredita que o público estrangeiro que procura literatura brasileira está na verdade interessado “em Brasil”, ou nos clichês do país. “Existe uma especificidade no Brasil que é muito perversa, ao contrário de outros países da América Latina, como México ou Argentina, que são considerados países literários na França, na Inglaterra. O Brasil não é considerado um país literário, não é um lugar que as pessoas vejam como produtor de coisas intelectuais sérias”, analisa.

Preconceito? “Talvez não seja exatamente isso. O Brasil se tornou uma espécie de território da burrice. O que está acontecendo politicamente no Brasil, além de ser um suicídio, mostra uma burrice generalizada no país que é muito impressionante”, afirma Carvalho.

“Eu acho que, como estrangeiro, se eu visse esse país, como ele se comporta, como ele reage politicamente, para onde ele caminha, o que ele faz com seus conflitos sociais, como ele resolve esses conflitos, como ele faz esses conflitos permanecerem, eu acho que eu não levaria a sério esse lugar”, pontua o escritor.

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