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Política externa de governo Bolsonaro deve priorizar relações com países ricos

Por Alfredo Valladão

A eleição passou e a poeira começa a assentar. O novo governo já deu sinais de como vai tratar as principais preocupações dos eleitores. A luta contra a corrupção e a criminalidade vai estar nas mãos de um superministério dirigido pelo juiz Sérgio Moro. Uma caução e tanto. Saber se vai ser bem-sucedido são outros quinhentos. Quanto a relançar a economia, outro superministério, comandado pelo economista Paulo Guedes.

O objetivo é aplicar uma política de abertura liberal, desestatização e modernização acelerada da indústria e dos serviços. Claro, um potente instrumento de decisão não garante o sucesso. A realidade vai se impor com um sem-número de poderosos lobbies exercendo pressões gigantescas para defender o seu pedaço, custe o que custar. Considerar que o futuro da política interna está cercado de incertezas é um eufemismo camarada.

Mas ainda falta a política externa. Nesse mundo globalizado, o Brasil não pode se dar o luxo de ficar de fora. Nos governos Dilma e Temer, a diplomacia brasileira praticamente desapareceu do mapa. A ponto dos governos estrangeiros começarem a perguntar: “Por onde andam os brasileiros?”.

Por enquanto, alguns sinais desconexos vindos do círculo mais próximo do presidente eleito – e do próprio Bolsonaro – indicam uma vontade de romper com as linhas de ação diplomática dos últimos 30 anos. É muito voluntarismo para tamanha reviravolta. A política externa de qualquer país, e ainda mais um gigante como o Brasil, é como navegar um imenso navio cargueiro: mudar de rumo é uma manobra complicada e leva tempo. E ainda por cima mexe com muitos interesses domésticos.

Apesar dos arroubos ideológicos, a política externa está sendo pensada sobretudo como um instrumento da política econômica e comercial. A nova estratégia econômica do futuro governo parece propor uma integração acelerada na economia globalizada. A ideia é atrair tecnologia avançada e investimentos, aumentar a competitividade da indústria e dos serviços pela participação nas cadeias de valor globais, e abrir acesso aos maiores mercados consumidores do planeta – Europa e Estados Unidos.

Um verdadeiro choque de capitalismo e de empreendedorismo competitivo. Trata-se de modernizar rapidamente as atividades econômicas para combater o velho modelo rentista brasileiro de indústrias subsidiadas pelo erário e protegidas pelo Estado. Exportar matérias-primas é uma das grandes vantagens comparativas do Brasil, mas não basta no mundo da nova economia digital globalizada. A nova estratégia vai precisar de parceiros ricos, com grandes mercados, forte capacidade de investimento e muita tecnologia. Parceiros que também tenham economias abertas, que não sejam controladas e manipuladas por Estados autoritários.

Governo brasileiro vai privilegiar parceria com potência

Isto significa uma política externa pragmática e flexível, que vai privilegiar as relações bilaterais com os americanos, os europeus, os japoneses ou Israel. Os países emergentes do G20 ou dos BRICS vão perder o status de sócios prioritários. O novo governo não quer ser um pobre entre os pobres. Prefere tornar-se um rico entre os ricos.

Essa visão bilateral das relações externas não significa abandonar o multilateralismo – nem a OMC, nem o Tratado de Paris sobre a mudança climática. Os dois são absolutamente necessários para garantir mercados de exportação para o agronegócio nacional. Mas esse novo bilateralismo não bate com os limites impostos pelas integrações regionais. Paulo Guedes já anunciou que o Mercosul não será mais uma prioridade.

Na América Latina, o governo Bolsonaro parece querer construir novas alianças, desenvolvendo parcerias com países que também apostam em economias de mercado abertas, como o Chile, a Colômbia, o Paraguai, o Peru, a Argentina ou até o México de Lopes Obrador.

Uma coalizão que, junto com Washington, vai provavelmente endurecer com a Venezuela, Cuba e os “bolivarianos” em geral. Por enquanto, não foi escolhido um ministro para o Itamaraty e ainda não se sabe como a diplomacia brasileira vai se adaptar a uma reviravolta deste porte. Mas uma coisa é certa: os arroubos “Sul-Sul” da política externa petista são coisa do passado.

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