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“Discurso de Bolsonaro legitima ‘direito de matar’”, afirma professora da Universidade de Brasília

Por RFI

As últimas eleições brasileiras levaram à presidência do país Jair Bolsonaro, do Partido Social Liberal (PSL). A chegada da extrema direita na maior esfera de poder do país por meio do voto é um fato inédito na história brasileira e é tema da pesquisa de pós-doutorado na França da professora da Universidade de Brasília (UnB), Vanessa Maria de Castro. Ela participou na segunda-feira (19) em Paris de uma conferência sobre o assunto no Instituto de Altos Estudos em Ciências Sociais (EHESS).

A pesquisa de Vanessa é intitulada “A crise da civilização e as desumanidades” e tem vários recortes, como o que ela chama de “genocídio da população negra” no Brasil ou ainda a ascensão de governos de extrema direita no mundo. Segundo a professora da UnB, no país existem duas realidades: a da “festa” e do povo “cordial” e a da “letalidade” de certas populações, como a negra ou a indígena. Foi na mistura desses três conceitos que o discurso de Bolsonaro ganhou terreno.

“Há também um alto índice de mortalidade de pessoas trans, o Brasil está em primeiro lugar nessa categoria. Então, existe esse país letal e, nesse arranjo da extrema direita, houve um ‘convite’ a aprofundar esse problema da letalidade”, afirma a pesquisadora, que ressalta o impacto das últimas eleições para a imagem do país no exterior. “A partir de agora, o Brasil está sendo olhado internacionalmente com perplexidade. ‘O que aconteceu?’, é a pergunta que nos fazem”.

Para Vanessa Maria de Castro, Bolsonaro tem um discurso “bélico” que pode ser fatal para certas populações que já são visadas na sociedade. “Ele faz um convite ao direito de matar. Todo esse viés da campanha foi no ‘direito de matar’. Mas eu vou matar quem? Quem não merece viver? Tem toda a questão da segregação no Brasil, é preciso discutir a questão da ‘racialidade’, em relação aos negros e aos indígenas”, analisa.

Pauta moral

A campanha de Bolsonaro, segundo Vanessa Maria de Castro, teve as seguintes características: o “convite moral” de matar, segregar e excluir. “O slogan da campanha é físico, é o posicionamento de uma arma. Isso é o convite para matar alguém com quem não concordo”, diz. “Uma outra coisa é não ter mais vergonha de ser de extrema direita. ‘Eu não gosto, vou expor isso e é um direito meu’. Não, não é um direito, a partir do momento em que isso vai tirar a vida de alguém. É preciso discutir a gramática que está sendo proposta”.

A eleição presidencial de 2018, segundo a professora, foi focada numa pauta “moral” e “teocrática”, fazendo uso de assuntos progressistas como as minorias LGBT ou o movimento feminista. “Você sai de um debate de laicidade e entra num debate de teocracia. Mesmo a Marina Le Pen manteve distância de Bolsonaro, porque a extrema direita [da França] não vai ter esse discurso moral dessa forma, porque pressupõe-se que isso já foi superado. Então você tem esse discurso fascista, excludente e de uma disputa gramatical do que é uma minoria e do que é uma maioria”.

A “supremacia branca brasileira”, de acordo com Vanessa Maria de Castro, tentou, com a eleição de Bolsonaro, manter uma ordem que pode lhe servir. “É esse ‘apartheid’ que sempre teve, que não é somente social, mas também físico, a partir do momento que uma dada população sabe que vai morrer. Uma mãe negra sabe que seu filho corre mais risco de vida do que uma branca. Isso é muito grave para uma sociedade democrática”, afirmou a pesquisadora.

Vanessa Maria de Castro concluiu a entrevista afirmando que os rumos para a pesquisa universitária no Brasil são incertos. “Tem professores do meu curso de graduação sendo ameaçados de morte e precisam ser afastados do país em função disso. Isso é muito grave. Qualquer um pode ser ‘convidado’ a sair do país se quiser sobreviver e não sabemos para onde vamos”, afirma.

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