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Lia Rodrigues volta à Paris com “Fúria”, coreografia com moradores da favela da Maré

Por Marcos Lúcio Fernandes

A coreógrafa e diretora Lia Rodrigues, criadora de espetáculos como Pororoca, Piracema, Pindorama e Para que o céu não caia, volta a Paris para apresentar o espetáculo Fúria. Em entrevista à RFI, ela fala sobre esse novo projeto e reafirma a necessidade de ser uma artista engajada no Brasil atual.

“Eu acho que 'Fúria' é um nome que reflete um pouco a situação que a gente vive atualmente no Brasil, principalmente na favela da Maré, onde eu já trabalho há 14 anos”, afirma a coreógrafa. “Acho que a fúria é um sentimento que os bailarinos e as pessoas carregam, mas que está muito mais fora do que dentro. A fúria oprime a favela.”

Lia lembra que, ao trabalhar com os dançarinos de seu espetáculo, a maioria da periferia, ela se deu conta de que eles traziam esse sentimento com eles. “E, é claro, eu também. É sempre esse sentimento de perplexidade e indignação com a situação, sobretudo das pessoas que moram nas favelas”, explica.

Engajamento é vital para a artista

A coreógrafa afirma que ser engajado é uma decisão de todo artista, que tem o direito de produzir seu trabalho como bem entender: “O mais importante é ser livre na sua escolha. No meu caso, visto a situação do Brasil, é impossível não ser engajada, como cidadã. Eu nasci branca, na classe média, com todos os privilégios que você pode imaginar”.

“Eu tenho tentado ao longo dos anos repartir esse privilégio que tive só porque nasci nesse lugar. Como é que posso aprender sobre esse país que não é o país que eu nasci, já que a maioria das pessoas não tem o que eu tive? Como é que eu pude ser artista e como eu posso abrir portas para as pessoas serem artistas se quiserem?”, questiona.

Em “Fúria”, Lia trabalha a questão da alteridade, um tema vital para a artista, sobretudo na França, onde a diversidade cultural, racial e social é gigantesca. “Quem é esse outro? A França é multicultural, mas ela sofre demais com essas questões, a França teve muitas colônias. Quem é esse outro que a gente rejeita, que é diferente da gente? Como é que a gente pode aceitar essa diferença? É a coisa mais bela que existe: o convívio com as diferenças de religião, de crença, de cor”, declara.

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