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Projeto político de Bolsonaro cria desconfiança na Europa, diz historiadora francesa

Por Elcio Ramalho

As perspectivas das Relações Internacionais do Brasil, agora sob o comando do presidente Jair Bolsonaro, foram um dos temas da entrevista com a historiadora francesa Anaïs Fléchet, professora de História contemporânea do Brasil na Universidade de Versalhes, na França. Ela também detalhou o significado da presença maciça de líderes da América Latina durante a posse, a ruptura representada pela ausência da África e as marcadas diferenças com a política externa europeia.

A brasilianista Anaïs Fléchet afirmou que a cerimônia da posse é sempre um momento interessante para observar as orientações políticas e diplomáticas do novo governo de Jair Bolsonaro, assim como a sua recepção internacional. “Uma das coisas que me chamou a atenção foi a defesa dos valores tradicionais nos discursos de Bolsonaro. Ele insistiu na necessidade de restabelecer valores da religião, da família, da pátria”, lembrou. “Visto da França, um país que tem longa tradição republicana e laica, estas referências repetidas a Deus chamam muito a atenção”, disse.

Fléchet chamou a atenção também para o vocabulário usado nos pronunciamentos. “Trabalho, família, pátria, ordem, um repertório que, para os franceses, lembra muito um período obscuro da nossa história, o regime de Vichy [durante a ocupação nazista na França, na Segunda Guerra Mundial]”, afirmou a historiadora.

“Achei interessante também os dois discursos da posse em termos de política externa. O presidente Bolsonaro valorizou muito a defesa da soberania e a construção da grandeza do Brasil. Um projeto nacionalista, por um lado, e um alinhamento com a política dos Estados Unidos, por outro”, analisou a especialista.

Para Fléchet, a nomeação de um Ministro das Relações Exteriores conservador, Ernesto Araújo, pode trazer problemas. “Ele veicula uma imagem muito polêmica, por ser um nacionalista convicto e um admirador de Donald Trump. Essa associação com os Estados Unidos, a ideia de ‘restaurar a grandeza do Brasil’, o projeto de pacto cristão com os Estados Unidos e a Rússia, cria uma certa expectativa negativa ou desconfiança na Europa com o projeto político desse governo de extrema direita”, afirmou a historiadora.

Ruptura com a África

Um aspecto menos abordado e igualmente importante, segundo Fléchet, foi a presença de vários líderes da América Latina na posse de Jair Bolsonaro. “Isso revela, por um lado, uma virada à direita de vários países latino-americanos, apesar da presença de chefes de Estado de esquerda, como o Evo Morales, da Bolívia, e o Tavares Vásquez, do Uruguai”, lembrou. “Além das questões ideológicas o Brasil continua com um peso muito forte na região”, disse.

“Sem surpresa, os governos de direita e extrema-direita europeus, como Viktor Orban, da Hungria, e Matteo Salvini, na Itália, foram os que mais apoiaram Jair Bolsonaro no momento da eleição e agora, no momento da posse. Os outros governos europeus se mostram mais prudentes. O próprio presidente da França, Emmanuel Macron, chegou a congratular Bolsonaro por sua vitória, mas com alguma desconfiança, lembrando em sua mensagem a importância dos aspectos democráticos e da diplomacia ambiental”, lembrou Anaïs Fléchet.

“Governos de centro e de centro-direita europeus veem Jair Bolsonaro como uma ameaça ao multilateralismo e à questão ambiental”, disse. “A supressão do Ministério da Cultura foi um sinal muito ruim para nós europeus. Por outro lado, existe muita solidariedade internacional dentro do setor cultural. A diplomacia cultural brasileira foi muito forte durante os anos do Partido dos Trabalhadores no poder, e talvez seja menos forte agora”, concluiu.

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