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Problema da água no Brasil não é técnico e sim cultural, diz especialista em recursos hídricos israelense

Por Stephan Rozenbaum

O projeto de Bolsonaro de dessalinização de água no Nordeste foi um dos temas mais discutidos no fim de 2018. Em uma mensagem no Twitter, no dia 25 de dezembro, Jair Bolsonaro anunciou que o futuro ministro da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, Marcos Pontes, buscará uma parceria com Israel na área de dessalinização de água salobra. A RFI conversou com especialistas israelenses que vêm uma parceria com o Brasil com bons olhos, mas ressaltam que resolver o problema hídrico do Nordeste necessitará planejamento a longo prazo.

A dessalinização é o processo de remoção dos sais dissolvidos na água do mar ou nas águas salobras subterrâneas, produzindo água doce, para ser utilizada, principalmente, no consumo humano ou em aplicações industriais.

Mas para Diego Berger, coordenador de projetos internacionais da Companhia Nacional de Água de Israel (Mekerot), não deveríamos estar falando somente em dessalinização. “Primeiro é preciso estudar, por exemplo, a redução da perda nas redes de água das cidades. Uma das leis que existem em Israel é que todo o consumo da água é medido. Até mesmo a água que é usada na agricultura. Geralmente, no resto do mundo, essa água usada na agricultura não é medida. Quando eu falo em colocar um medidor de água nesses casos, reclamam dizendo que o objetivo é somente cobrar por um serviço”, explicou. “Antes, Israel era um país muito pobre e também não se media, mas é preciso lembrar que sem uma medição correta fica impossível gerenciar o sistema. Como se pode fazer a gestão de um recurso que você ignora a quantidade que tem”, questionou Berger.

Gestão integrativa dos recursos hídricos

Para ele, é preciso haver uma gestão integrativa dos recursos hídricos. Mas a mentalidade, em vários países, é o principal obstáculo. “Agora estou trabalhando na Índia, perto de Mumbai, e eles também não medem. 90% da água vai para a agricultura e ninguém mede. O que eu falo sempre, no Brasil, na Argentina, e em outros países da América Latina, é que o maior problema não é técnico, mas cultural. É um problema do valor que é dado à água. Isso inclui como ela é usada, se é feito o reuso desta água. Hoje, 85% do esgoto de Israel é reutilizado para a agricultura”, explicou o especialista. “Eu sempre falo que Israel foi abençoado pela falta dos recursos hídricos, pois graças a isso, tivemos que aprender a utilizar ou reutilizar o que tínhamos de uma forma muito mais razoável”, completou.

Para Shai Saresh, que trabalha no setor privado de dessalinização do país, a aproximação entre Brasil e Israel pode ser benéfica para empresas das duas nações. “Normalmente, quando parcerias são feitas, existe um trabalho conjunto entre os que chegam com o “know-how”, fazendo um trabalho de consultoria, e as empresas que já trabalham nesse setor no país. Há também a possibilidade de trazer tecnologias que ainda não são usadas, quando necessário. E as empresas locais ajudam com a contratação da mão de obra, a burocracia e outros problemas locais”, afirmou.

Planejamento a longo prazo

No entanto, Diego Berger lembra que o “maior problema não é a tecnologia, mas sim a boa gestão”. Ele ressalta o papel crucial da consultoria nesses casos. “Eu acho que é mais importante do que fazer uma obra. Porque com a consultoria, nós fazemos um plano diretor que mostra como será o setor hídrico nos próximos 30 anos. Com isso, mostramos como se deve evoluir, como melhor e que tipo de projetos serão necessários”, analisou.

O argentino elogiou a iniciativa do novo presidente brasileiro, que, segundo ele, tem a possibilidade de mudar a importância que o país dá à água. “Não é pensar que com uma obra tudo será resolvido, mas é começar a traçar um caminho para poder mudar a forma como os recursos hídricos são gerenciados atualmente. No Brasil há muito recurso, e por isso existe a cultura da abundância. Em um momento ela vai se transformar em uma cultura de escassez, portanto é preciso começar a reagir agora a essa situação. Mudar isso já seria uma grande coisa”, concluiu Berger.

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