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Brasileira que trabalhou com família real britânica conta bastidores e gafes com a rainha

Formada em marketing, Danielle dos Santos Cabral foi trabalhar no palácio de Buckingham indicada por uma cliente de um supermercado onde trabalhava como caixa, em Londres.

 

Vivian Oswald, correspondente da RFI em Londres

Mais de dois bilhões de telespectadores assistiram à união do príncipe Harry e da ex-atriz americana Meghan Markle, agora duquesa de Sussex, em maio do ano passado. Foi o casamento real de maior audiência de que se tem notícia. A realeza britânica exerce uma espécie de fascínio em todo o planeta.

As pessoas acompanham o que acontece com a família real como quem assiste a uma novela. É como se tentassem tirar uma casquinha de um grande conto de fadas que pouquíssimos terão a chance de vivê-lo. Mas uma brasileira viu de perto o que se passa em momentos especiais, formais ou mais descontraídos, da monarquia britânica.

A paulista Danielle dos Santos Cabral conheceu a rainha Elizabeth II e seus castelos. Ela não trabalhava apenas no Palácio de Buckingham, em Londres. Viajava com a rainha para os castelos de Windsor e de Balmoral, na Escócia, e Sandringham House, a casa de campo real, em Norfolk. Mas Balmoral é o preferido de Danielle. "Aquele lugar é mágico, era a viagem mais longa que a gente fazia com ela", conta à RFI.

A brasileira conversou com o príncipe Phillip, o duque de Edimburgo, marido de Elizabeth II. Ele gostava de conversar com ela e falar do Brasil. Sempre vinha puxar assunto. Formada em marketing, Danielle foi parar no castelo quando ainda trabalhava como caixa em um supermercado de Londres. Foi chamada por uma cliente, que trabalhava para uma empresa de limpeza terceirizada que se ocupava do Palácio, para uma entrevista. Uma semana depois, soube que havia uma vaga na equipe que serve as refeições de todos os funcionários do Palácio.

Danielle passou por nove entrevistas e esperou oito meses até que a administração real fizesse uma varredura nos últimos 10 anos de sua vida. Demorou também porque não foi fácil levantar suas referências.

No Brasil, ao receberem o telefonema e ouvirem do outro lado da linha que a chamada vinha do Palácio de Buckingham, muitas pessoas não levavam a sério e desligavam. Foram anos inesquecíveis e Danielle tem dificuldade de escolher os mais especiais. "Quando eu dancei com a rainha foi incrível, e também quando conheci o Barack Obama", lembra.

Dançando com a rainha

No Palácio, ela trabalhava no restaurante que atende os funcionários, que servia de 350 a 400 almoços diários. No verão, esse número passa para 700, já que o castelo é aberto à visitação pública, e, para isso, contrata reforços. Ela aprendeu do zero a colocar a mesa com talheres de prata e copos de cristal. Tudo deveria estar perfeito, nos mínimos detalhes. A manteiga, por exemplo, devia ser servida em forma de duas bolinhas, exatamente do mesmo tamanho, feitas usando dois pedaços de madeira com ranhuras na ponta. O acabamento final era o selo com a coroa real.

O trabalho era feito a mão. Depois de prontas, as bolinhas de manteigas eram colocadas em um balde com água e gelo, para que endurecessem. Danielle também trabalhou dois dias como chefe de cozinha. Aprendeu a preparar canapés e fez as batatas e vegetais da rainha. Todo ano, no verão, a rainha se muda para Balmoral, onde realiza dois grandes bailes. E os funcionários do Palácio são todos convidados para a festa.

"Quando eu cheguei lá, tinha todo um protocolo para ir a esse baile. A gente tem que estar com os ombros e os joelhos cobertos. Aprendemos a dança escocesa. Tem uma das danças escocesas, onde todas as mulheres vão para o centro do salão. A gente faz uma roda de costas para o centro e os homens fazem uma roda de frente para o centro", relata.

"A gente dança rodando, virando para o lado direito, e os homens para o lado esquerdo. Na hora que a música para, você tem que dançar com o rapaz que está na frente. O Pipe (ou porta-voz da festa) da rainha comanda a festa e pede para todas as mulheres irem para o centro do salão. Quando eu estava no centro, olhei para a minha direita para pegar na mão da pessoa ao lado e era a rainha ", conta.

Elizabeth II pediu a Danielle para que, da próxima vez, convidasse mais amigas para a festa. Como há sempre muitos convidados das Forças Armadas, costuma haver mais homens do que mulheres na dança. E, se eles não encontram par, ficam fora da roda. "Essa foi a preocupação dela. Ela começou a conversar comigo e demos algumas risadas. Achei engraçada a preocupação dela em fazer com que todos pudessem participar. Isso é o que a família real quer quando faz uma festa, agradar a todos".

Encontros e gafes

Em Balmoral, entre o almoço e o jantar, os funcionários ganhavam a tarde livre para não ter de receber horas extras. Eles aproveitavam para passear pela propriedade. Foi assim que toparam com a rainha, que passeava a pé com seus cachorros, antes de sair dirigindo seu Land Rover. O automóvel real não é difícil de identificar. Tem um Corgi de prata, que é a raça dos cachorros que ela cria, afixado no capô.

"Uma vez eu e minhas colegas estávamos caminhando, quando, de repente, começou a vir um monte de cachorrinho latindo na nossa direção. Foi muito engraçado, ficamos meio assustadas. Quando olhamos, vimos o carro da rainha estacionado e, logo atrás dos cachorrinhos, uma senhorinha de lenço na cabeça, andando com os cachorros", diz. "Ela pediu mil desculpas por todo o barulho, pelos latidos dos cachorros, por toda a bagunça. Deu uma pequena bronquinha nos cachorros, mandando parar de latir, e continuou caminhando. Abriu a porta do carro e colocou os 11 cachorros dela dentro e saiu dirigindo", conta.

Danielle na propriedade do castelo de Balmoral, na Escócia, onde acompanhava a rainha Elizabeth II durante quase um mês. Foto: Arquivo Pessoal

Hoje, Danielle ri de algumas gafes. Caiu da escada no Palácio de Buckingham, quando ia encher uma jarra de suco para oferecer aos convidados da casa. A jarra de cristal que pertenceu à rainha Vitória só não se espatifou porque Danielle a protegeu. Mesmo assim, perdeu a alça. Ela também enxotou um dos cachorrinhos de Elizabeth II no castelo de Windsor, achando que era o cão da governanta da rainha. O animal tentou roubar a comida do carrinho que levava até o refeitório.

"Na hora de coletar a comida, a gente colocava tudo em um carrinho totalmente aberto e transitava até o refeitório. Quando eu estava passando pela sala da governanta da rainha, vi que ela estava aberta. Tinha um portãozinho para a passagem do cachorro que é da mesma raça da rainha, um Corgi", conta. "Esse cachorro, por sinal, é filho de um dos cachorros da rainha. Eu passei, vi que o  portãozinho estava aberto, mas não vi nenhum sinal do cachorro. Continuei no corredor. De repente, virando à esquerda, em outro corredor, um cachorro veio correndo em direção, onde estavam as batatas", explica.

"Coloquei o pé para bloquear o cachorro e impedir que ele se aproximasse da comida. Nesse momento, ouvi uma voz falando atrás de mim: 'sai daí, sai daí!'. Olhei pra trás e era a rainha. Fiquei completamente constrangida, porque eu não tinha usado as mãos para bloquear o cachorro. Usei o pé. Pedi desculpas para ela. Ela respondeu que não tinha problema nenhum, que ele é que não deveria estar ali tentando pegar as batatas fritas", se diverte.

Derrubando as sobremesas

Danielle também derrubou 40 sobremesas com o barrigão da segunda gravidez. Ela morou com o marido e os dois filhos pequenos no Palácio de Buckingham. A casa de dois quartos ficava atrás da cavalariça, onde moram os funcionários mais próximos da rainha. O tamanho da residência depende do tempo de casa e das funções exercidas. Danielle perdeu o casamento de William e Kate. Estava grávida e a barriga não passava na roupa. Mas serviu o jantar de Estado oferecido para o ex-presidente americano Barack Obama, com quem tirou uma foto oficial.

Danielle deixou o emprego dos sonhos de muita gente em 2016 para cuidar dos filhos. A mais velha tinha problemas de saúde e ela queria estar perto. Não podia mais viajar tanto. "Valeu cada ano, cada minuto, cada aprendizado, tudo. Resolvi me dedicar à maternidade, que foi uma decisão muito difícil, porque eu realmente gostava do meu trabalho no palácio. Tenho muitas saudades e muitos amigos lá, a gente sempre se fala. Mas vai sempre ficar guardado no meu coração. Foi mais do que um trabalho. Foi uma experiência de vida".

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