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“Brasil e França trabalharam pelo silenciamento da memória escravista”, diz historiadora

Por Elcio Ramalho

O trabalho de resgate da memória do período escravista do Brasil é tema de uma série de palestras em Paris da professora do departamento de História da Universidade Federal de Juiz de Fora e Professora Titular de História do Brasil da Universidade Federal Fluminense, Hebe Mattos. 

Além dos encontros com estudantes de universidades e especialistas, ela está em uma missão junto ao Centro Internacional de Pesquisas sobre a Escravidão, vinculado ao CNRS (Centro Nacional de Pesquisa da França), para concluir a revisão em francês de seu livro "Das Cores do Silêncio". A obra, lançada nos anos 1990 a partir do trabalho da historiadora com descentes de escravos no Rio de Janeiro, foi reeditada em 2013 e esta nova versão ganhará uma tradução em francês.

Hebe integra diferentes atividades e grupos de pesquisadores que trabalham no resgate da memória da escravidão, assunto que é transversal entres os dois países.

“Brasil e França estão na origem da escravidão africana no Atlântico. O Brasil com a colonização portuguesa e a França com a colonização das Antilhas, utilizando a mão-de-obra escrava africana. E mesmo depois, com a França pós-revolução e o Brasil independente, constitucional e liberal, mantiveram a escravidão por algumas décadas. E, apesar das diferenças, os dois países vão trabalhar com um certo silenciamento dessa memória”, afirma.

Hebe vê muitos paralelos no processo de colonização no Brasil e por parte da França. “São dois países católicos, que atualizam o processo de escravidão já sua fase mais liberal, nacional, e que lidam com a abolição mais na chave do silêncio do que no enfrentamento das feridas que essa ordem escravista deixou nas duas sociedades”, argumenta.

No Brasil, Hebe coordena o Laboratório de História Oral e Imagem (LABHOI), rede de pesquisa com grupos em funcionamento na UFF e na UFJF, e é responsável pelo projeto Memórias do Cativeiro, criado em 1994.  

Durante suas investigações, Hebe conversou com netos de escravos que viveram o período da abolição no Brasil. O trabalho foi focado nas comunidades negras escravizadas das antigas áreas cafeeiras no interior do Rio de Janeiro.

Segundo a historiadora, essa pesquisa revelou um aspecto pouco conhecido e garantido por um silêncio que reinou no país para ofuscar um procedimento que trouxe ilegalmente cerca de 750 mil pessoas em um espaço de 20 anos entre a 1ª e 2ª lei da abolição do tráfico negreiro. “Esse trabalho foi importante para fazer essas comunidades se autorreconhecerem como remanescentes de quilombos e também para todo o movimento social e de reconhecimento de patrimônios imateriais de origem africana, como o jongo”, afirma, em referência à dança que tem raízes no Congo-Angola.

“Trata-se de uma pesquisa em dois tempos. Como a memória da escravidão é atualizada politicamente por essas comunidades e como ela pode nos iluminar sobre determinados aspectos silenciados da história do Brasil no século 19”, acrescenta.

Evolução da sociedade

Hebe Mattos estima que a partir da Constituição de 1988, o trabalho de resgate histórico da comunidade negra e escravizada no Brasil ganhou nova dimensão e abertura. “Essa história era fechada em pequenos grupos familiares e se politizou, e um ‘boom’ das comunidades remanescentes de quilombos ocorreu, acionando publicamente essa memória”, diz.

Ela cita como exemplo a descoberta em 2011, durante as escavações da zona portuária, do Cais do Valongo, porto de entrada de escravos africanos, que fez do Rio de Janeiro a maior cidade escravista do Atlântico no século 19. Em 2017, o sítio arqueológico foi reconhecido como Patrimônio Mundial da Humanidade. “Há uma importante iniciativa de criar um Museu da História da Cultura Afro-brasileira na cidade do Rio. Há uma demanda dessa memória e de como lidar com ela no espaço público, como não havia 30 anos atrás”, justifica.

O Estatuto da Igualdade Racial, instaurado em 2010, também se transformou em um marco da ruptura com um racismo institucionalizado no país, segundo Hebe. “Hoje em dia, como o Censo sabe a cor da população brasileira? Hoje a população se autodeclara cada vez mais negra e parda? Há um orgulho em negar os processos de branqueamento crescentes. Mas como todas transformações profundas pelas quais o Brasil passou nas últimas décadas, e elas foram positivas, produziram também uma reação de vontade reacionária, de volta ao passado, mas eu acho que não tem mais retorno. Sou otimista por esse ponto de vista”, concluiu.

Veja abaixo a entrevista completa:

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