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"Ataques a povos indígenas é suicídio cultural”, diz geógrafo francês

Por Elcio Ramalho

Especialista em monitoramento da Amazônia, o geógrafo francês Laurent Durieux, pesquisador do IRD - Instituto para Pesquisa e Desenvolvimento da França, expressa preocupação com as medidas adotadas no início do novo governo brasileiro em relação aos direitos dos povos indígenas no país.

Durieux tem uma opinião bastante crítica sobre as mudanças das atribuições de órgãos públicos responsáveis por políticas indígenas no governo Bolsonaro. “Tirar a Funai do Ministério da Justiça e colocá-la no Ministério das Mulher, da Família e dos Direitos Humanos é problemático porque o que a Funai faz é muito técnico. A Funai deveria ser um orgulho do Brasil. Para mim, é uma grande realização em relação aos indígenas”, defende.

Levar a demarcação de terras para o Ministério da Agricultura também é motivo de preocupação, segundo o especialista. Ele aponta que as medidas representam uma ruptura na relação dos povos indígenas com suas tradições e espaço natural.

“Dividir em dois a questão cultural e territorial dos povos indígenas é ruim, porque eles têm uma cultura muito associada à terra e protegida por lei. Mesmo que a lei atual seja alvo de críticas, a nível internacional é uma das melhores que existe. Ela participa dos objetivos de proteção dos povos e do meio ambiente”, destaca.

Atualmente, Durieux atua na missão do IRD sobre a convergência da inteligência artificial e observação da Terra para discutir soluções globais no âmbito do Fórum da ONU para o Meio Ambiente. Sua experiência no Brasil e sua visão apontam na direção da preservação das culturas e das terras indígenas, um "patrimônio ancestral do país".

“Enfraquecer os direitos é atacar os índios, e o Brasil vai se perder culturalmente. A cultura indígena protege as florestas e uma floresta sem indígena tem muito mais chances de ser destruída e invadida ilegalmente”, alerta o geógrafo francês.

"Suicídio cultural"

Laurent Durieux observa com bons olhos a mobilização que acontece dentro e fora do Brasil para preservar os direitos de diferentes etnias. “Muitos grupos internacionais estão entrando em contato com os indígenas e existe uma mobilização para apoiá-los. Muitos de lá também pedem apoio de fora. O momento é de crise, cultural, da multiculturalidade, e também ambiental. Muitas pessoas estão sensíveis com essas questões”, avalia.

Durieux justifica essa preocupação manifestada principalmente por Ongs de defesa dos Direitos Humanos devido ao impacto “negativo” das primeiras medidas do novo governo, consideradas como “ataques a esses povos”.

O especialista também se mostra inquieto com o futuro da Amazônia, devido ao discurso de que a região não é muito produtiva, e que pode resultar em um aumento do desmatamento.

“Ainda temos pouco conhecimento científico. O que sabemos é que (a região) terá problemas, mas não sabemos a dimensão. Não sabemos, por exemplo, se a Amazônia poderá pegar fogo inteiramente, o chamado ‘tipping point’, contido em relatórios sobre o clima, mostrando o que pode acontecer com um superaquecimento. Mas o maior medo dos cientistas está ligado a dados que ainda não temos certeza. Se for preciso ter uma valorização econômica, é necessário estabelecer diálogos com essas comunidades indígenas. A parte cultural deve estar no centro dos projetos”, defende.

Ele insiste que a ofensiva manifestada contra os indígenas representa uma verdadeira regressão. “A relação que os índios têm com a terra é moderna e não podemos atacar e falar mal dessa cultura que tem um valor agregado. O Brasil é um país forte, que tem que se defender na escala internacional, mas sem se destruir. Para mim, o que está acontecendo é um suicídio cultural”.

“Tenho preocupação que as questões do agrobusiness e dos indígenas sejam antagonistas. Podemos até ter um negócio com o setor agroflorestal, mas não é a tendência. Esse antagonismo gera receios”, conclui.

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