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Nicolás Maduro Christiane Taubira Jean-Luc Mélenchon

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Coletivo de políticos da esquerda publica artigo criticando ingerência da França na Venezuela

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O presidente venezuelano Nicolas Maduro, com militares em Maracaibo. 06/02/19 Miraflores Palace/Handout via REUTERS

Um artigo escrito por um coletivo que reúne personalidades importantes da esquerda francesa, publicado no jornal Le Monde que chegou às bancas na tarde desta quinta-feira (7), denuncia um “alinhamento cego” do presidente francês, Emmanuel Macron, com os Estados Unidos em relação às discussões da crise venezuelana. O grupo de políticos pede uma “solução pacífica”.


O coletivo que escreveu o artigo conta com nomes de peso da política francesa, como Eric Coquerel, da esquerda radical, ou Jean-Luc Mélenchon, presidente do partido A França Insubmissa. “O momento é grave na Venezuela. O país atravessa a crise econômica, social, política e democrática mais dramática de sua história. Existe agora a ameaça de uma deflagração cujas consequências seriam incalculáveis e desestabilizadoras para a América Latina, região que, até agora, escapou da guerra”, escrevem os autores.

O coletivo critica o fato de que o presidente francês seguiu os passos do chefe de Estado norte-americano, Donald Trump, e fez declarações apoiando Juan Guaidó como presidente interino da Venezuela. “É preciso levar à sério as declarações de Washington. (...) Temos hoje todos os ingredientes para uma escalada que, se não for interrompida rapidamente, conduzirá ao pior: à violência, à guerra civil ou à guerra mundial.”

De acordo com o artigo do Le Monde, a questão já não é mais apoiar Nicolás Maduro, presidente eleito pelo sufrágio, ou Juan Guaidó, interim autoproclamado, mas interromper as tentativas de ingerência internacional. “Na Venezuela, como em outros países, o resultado dessa atitude é conhecido. Crises dessa magnitude não são resolvidas pela força ou pelo intervencionismo direto ou indireto.”

Segundo os signatários do texto, a decisão de reconhecer Guaidó, tomada por diversos países europeus, latino-americanos e norte-americanos, dificulta a situação ao produzir um sistema de dupla legitimidade política, algo insustentável. “Ao adotar essa medida, a França se submete a um processo perigoso que ameaça a integridade e a soberania da Venezuela, assim como a estabilidade da América do Sul”, afirma o coletivo.

Os políticos da esquerda francesa afirmam que, a partir de agora, o papel de mediador da França já foi afetado por seu apoio a Guaidó. “Nós pedimos a nosso governo que mude sua decisão e apoie todas as posições que se expressarão a favor de uma solução política, pacífica e que respeite as regras da ONU”, concluem os autores do artigo.

Diplomacia do McDonald’s e da Coca-Cola

O Le Monde publicou mais dois textos sobre a situação na Venezuela. O primeiro, escrito pela ex-ministra da Justiça francesa, Christiane Taubira, também é crítico quanto ao alinhamento com o governo de Trump, “mais intervencionista que nunca”. “É o triunfo da diplomacia do McDonald’s e da Coca-Cola. Acabou a sutileza e a delicadeza. É o retorno da retórica do bem contra o mal”, denuncia Taubira.

Já o cientista político Renée Fregosi analisa as várias maneiras de escapar de uma ditadura. Para ele, no caso da Venezuela, será preciso convencer Cuba a negociar. “Desde a morte de [Hugo] Chávez em 2013 e a chegada de Nicolás Maduro, formado em Cuba, a doutrina castrista controla o destino venezuelano. A negociação deverá incluir duas compensações: garantias para o chavismo, se ele consentir o retorno à democracia, e uma ajuda financeira à Cuba, para que ela deixe a Venezuela escolher seu caminho”, analisa o especialista.