rfi

Ouvindo
  • RFI Brasil
  • Último jornal
  • RFI em francês
RFI CONVIDA
rss itunes

“Literatura LGBT não deve virar rótulo”, diz escritora Cristina Judar em Paris

Por Elcio Ramalho

Apresentada como um dos destaques da programação da 6ª edição da Primavera Literária Brasileira, a escritora paulista Cristina Judar participou de diversas mesas e debates com foco em literatura feminina e LGBT. Nas suas diversas intervenções com estudantes universitários e leitores na França e na Bélgica, ela defendeu o combate para uma produção literária voltada a um público amplo, longe de rótulos. 

Na participação da abertura do evento, que tem como lema “Qual Brasil? Qual Literatura”, Cristina Judar esteve presente ao lado das escritoras Patrícia Portela e Igiaba Scego para refletir sobre o espaço da produção e escritura feminina.  

“Percebemos um interesse em dar relevância para reflexões, temas e causas que precisam estar tanto dentro quanto fora da literatura. Percebo que pautas importantes para nós relacionadas a muitos assuntos, desde o machismo, de conquistas e manutenção dos nossos direitos, estão dentro na nossa produção literária”, contou.

“Somos diversas e temos uma pauta em comum. E o interessante é que cada uma se expressa da sua forma, seja pela prosa poética, só prosa ou poesia, romance ou conto, existe uma unidade na diversidade”, acrescentou.

Literatura sem segmentos

Durante a Jornada de Estudos na Universidade Sorbonne, em Paris, ela esteve ao lado do piauiense Raimundo Neto para falar sobre suas vivências no painel dedicado à refletir sobre “escrever sob o medo”. 

“Temos que cuidar para literatura LGBT não virar rótulo. Somos todos escritores, vários de nós podem ou não ser LGBT. A questão é: podemos falar livremente sobre vivência homoafetiva, vivência homossexual? Sobre como as pessoas vivem, andam e pensam nas ruas? Queremos ter visibilidade mas também fazer parte do todo, não estar sempre em um nicho”, reivindica.

A escritora diz militar para que os escritores LGBTs sejam livres para escrever sobre o que quiserem, sem serem catalogados em nichos e lidos apenas por uma determinada parcela do público.

“Somos capazes de produzir uma literatura de qualidade, como qualquer outro escritor. A questão da homoafetividade ou não só diz respeito à própria pessoa e o público não deve interferir”.

“O que quero é ter minha própria visibilidade e fazer com que outros também tenham visibilidade no meio literário maior, e não fiquem às margens, isso é importante”, ressalta.

Prêmio deu visibilidade

Editora da revisa de arte e cultura Reversa Magazine, voltada ao público LGBT, a paulistana estreou na literatura com a publicação de dois livros de Quadrinhos: Lina (Ed. Estação Liberdade, 2010) e Vermelho, Vivo (Ed. Devir, 2011). Na sequência publicou o livro de contos Roteiro para uma vida curta (Ed. Reformatório), em 2016, um ano antes de publicar seu primeiro romance, “Oito do Sete” (Ed. Reformatório), com o qual venceu o prêmio São Paulo de Literatura, e foi finalista do Prêmio Jabuti.

Cristina disse não ter sido muito afetada pessoalmente com as recompensas. “Não mudou muita coisa. A minha relação com a literatura continua a mesma. Dentro de mim é a mesma coisa e nem quero que mude. Só sofre as transformações com o tempo”, afirma.

Encarando com naturalidade a projeção dada à sua obra, ela não sente pressão para que seu trabalho atenda às expectativas geradas pela atribuição do prêmio São Paulo de Literatura. “A minha maior preocupação é continuar produzindo da forma que eu quero e como eu penso. Isso para mim é o mais importante. Mas é obvio que a relação de visibilidade faz diferença. Abre muitas portas, mas não muda muito porque o caminho da literatura do Brasil não é muito fácil”, diz.

Cristina destaca o papel fundamental exercido atualmente pelas editoras independentes no atual cenário brasileiro, marcado pela crise econômica que atinge livrarias e editoras de livros e as dificuldades das atividades ligadas à cultura diante do contexto político. “Elas mostraram que é possível lançar bons livros, de alta qualidade e ganhar prêmios. Essas editoras têm dado espaço para vozes que têm surgido e para quem está fora do que se considera ‘alta literatura’. Elas trazem novas discussões e novos formatos e experimentação", garante.

As discussões atualmente sobre o futuro do setor ainda não apontam saídas, mas as reflexões não devem afetar a capacidade e a necessidade de produção dos escritores, segundo Cristina.

"Ninguém sabe atualmente qual o caminho para a literatura. Mas o importante que vejo e o que sinto como escritora é que ninguém vai parar. Diante das dificuldades, nossas ações parecem ter ainda mais sentido. E dá mais vontade ainda de produzir e fazer essa diferença”, garante.

Hong Kong: Impacto internacional limita riscos de novo massacre pela China, diz professor

Brasileiro propõe Notre-Dame com cobertura leve em vitrais: “Risco estrutural é real”

“Somos seres humanos como Bolsonaro”, diz índio brasileiro no Festival de Locarno

“Países que praticaram políticas de privatização do ensino nunca chegaram a esse nível”, diz professora da Unirio, que participa do protesto pela educação no Brasil

Após turnê europeia, cantor Dienis retorna ao Brasil com “Lua Cheia”

Filme de brasileira concorre a prêmio no Festival de Locarno tocando em feridas abertas da colonização amazônica

Paulo Artaxo: limitar aquecimento global a 2°C é “praticamente impossível”

Não há risco de epidemia de malária vinda da Venezuela, mas de sarampo sim

Brasil vive "tentativa de imbecilização coletiva”, diz filósofo português

Arles: festival de fotografia mostra trabalho de Pedro Kuperman e indígenas Ashaninka, do Acre

“Aliança militar com EUA é coerente com projeto de submissão do Brasil”, diz pesquisador da UNESP

Ao dar "bolo" em chanceler francês, Bolsonaro mostra que não tem postura de presidente, analisa cientista político

“O sistema judiciário se tornou espaço de disputas políticas”, diz juiz Rubens Casara

Discurso de governo para explorar terras indígenas legitima invasões, alerta organização indigenista

“A sociedade diz todos os dias como uma mulher negra tem que se comportar”, afirma cantora Tássia Reis, em turnê na Europa

Demônios da Garoa se apresenta pela primeira vez na Europa em festival que homenageia São Paulo

“Workaholic”, Balzac tinha a pulsão de retratar a França do século 19, diz pesquisadora

“Foi o jornalismo que me preparou para a música”, diz a cantora Letícia Maura