rfi

Ouvindo
  • RFI Brasil
  • Último jornal
  • RFI em francês
Economia
rss itunes

Provocações de Bolsonaro à França podem causar gelo nas relações

Por Lúcia Müzell

“Insuportável” devido à presença de imigrantes, “mau exemplo” em política de fronteiras, ou ainda a ameaça de abandonar o Acordo de Paris sobre o Clima. Antes ou depois de assumir a presidência, Jair Bolsonaro não hesitou em multiplicar as críticas diretas à França, numa postura que causa desconforto na diplomacia e pode acabar em prejuízos comerciais.

Desde que a chancelaria brasileira assumiu uma posição alinhada aos Estados Unidos, Paris se tornou um dos alvos preferenciais de Bolsonaro na cena internacional. Não à toa, o último disparo ocorreu durante a visita do presidente brasileiro a Washington, quando argumentou que “quem é favorável ao socialismo deve olhar para a experiência da França, que abriu suas fronteiras a todo tipo de refugiado” e “é um mau exemplo”.

Uma fonte diplomática francesa reconhece que as declarações causam “estranheza” e “com certeza não ajudam a relação bilateral”. Para o economista Thomás de Barros, professor e pesquisador do Cevipof, ligado à Sciences Po, de Paris, o impacto acaba por se tornar negativo ao colocar o diálogo de alto nível com a França sob uma perspectiva conflituosa.

“A relação entre o Brasil e a França ou com a União Europeia é muito maior do que qualquer governo que venha a se instalar tanto no Brasil quanto na França. Não acho que estejamos em uma situação de regressão, mas o que vivemos atualmente é uma situação de imobilismo”, comenta o pesquisador. “Não estamos indo para frente, abrindo mão de uma série de oportunidades para fazer novas parcerias e aprimorar a nossa relação. Ela vai acabar esfriando, ou ao menos em ponto morto, pelos próximos três anos.”

Distanciamento de valores

Além dos comentários em si, a posição de Bolsonaro contra os direitos humanos e minorias também o afasta de valores historicamente defendidos pelos franceses.

Por enquanto, a postura de Paris é de ignorar as provocações. A única resposta até agora veio quando o presidente Emmanuel Macron advertiu sobre as consequências de um eventual abandono do Acordo de Paris sobre o Clima. Meses depois de Donald Trump fazer o mesmo nos Estados Unidos, Bolsonaro havia prometido retirar o Brasil do tratado, uma das maiores conquistas diplomáticas de Paris das últimas décadas.

“O Brasil não é os Estados Unidos. O Brasil não tem esse cacife para conseguir sair impunemente do Acordo de Paris. Já em Buenos Aires, em dezembro de 2018, o Macron avisou que o acordo comercial que está sendo gestado há muitos anos entre o Mercosul e a União Europeia não sairia do papel se Bolsonaro de fato retirasse o Brasil do Acordo de Paris”, ressalta Barros. “Essa é uma questão importante: há consequências econômicas disso.”

França é um dos principais investidores estrangeiros no Brasil

Depois do Marrocos, o Brasil é o maior destinatário de investimentos públicos franceses para desenvolvimento, possíveis graças ao acordo climático. Além disso, mais de mil empresas francesas estão presentes no país e empregam mais de 500 mil funcionários.

“As empresas francesas são as maiores empregadoras estrangeiras do Brasil, mais do que empresas americanas ou alemãs. A França está em primeiro lugar no setor de varejo, com o Carrefour e o Casino, e também no automobilístico”, sublinha o economista Thomás de Barros. “A França é uma parceira econômica muito importante do Brasil.”

A fonte diplomática francesa, que prefere não se identificar, avalia que “as relações entre o Brasil, a França e a Europa são bem maiores do que essas colocações grotescas” de Bolsonaro, mas pontua que o Brasil pode acabar “isolado" se insistir na retórica hostil.

Nas declarações, o diplomata vê “influência do Steve Bannon”, o ex-estrategista de Donald Trump, que aconselha os filhos de Bolsonaro a consolidar uma onda global ultraconservadora e contrária a valores sociais-democratas em vigor na maioria dos países europeus, incluindo a França.

Até o momento, não há previsão de encontro bilateral entre os presidentes Bolsonaro e Macron, no Brasil ou na França. Essas visitas costumam ser acompanhadas de comitivas de empresários e são ocasiões preciosas para o fechamento de contratos entre os dois países.

Marcas de fast fashion oferecem conserto, reciclagem e revenda de roupas

Franceses são maiores empregadores estrangeiros no Brasil; rixa prejudica novos negócios

Baixar alíquota máxima do IR seria mais um “presente para os ricos”, diz discípulo de Piketty

No 1º salão após venda à Boeing, Embraer foca em defesa, jatos e inovação

Em meio a cortes na Defesa, governo acerta compra de mísseis europeus por € 200 mi

Cortes do governo Bolsonaro prejudicam agricultura familiar, apontam especialistas na FAO

Brasil não corre risco de “virar uma Argentina”, apesar de confusões de Bolsonaro

Incentivos fiscais fazem doações milionárias à Notre-Dame recaírem sobre o Estado francês

Especialistas em dados e IA são disputados a peso de ouro pelas empresas

Desconfiança sobre investimentos chineses leva a reação internacional

Em crescimento, fundos ativistas viram acionistas para mudar empresas por dentro