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DJ Marcelinho da Lua lança álbum “Insolente” e diz: “Mundo atual está precisando de provocação”

Por Marcos Lúcio Fernandes

Quando lançou, em 2004, seu primeiro álbum solo, “Tranquilo”, Marcelinho da Lua já era um conhecido DJ e produtor musical no Rio de Janeiro e no Brasil. Mas a nova roupagem que deu à canção “Cotidiano”, de Chico Buarque, na voz de Seu Jorge, serviu para alavancar a carreira e deixar marcado seu estilo refrescante na cena eletrônica brasileira. De passagem por Paris, ele falou com a RFI sobre seu próximo disco, “Insolente”, uma criação cheia de crítica política e de novidades na estética sonora do artista.

Marcelinho da Lua começou a entrevista afirmando que seu novo projeto, “Insolente”, chegou para buscar provocação – como o próprio nome sugere. “Com certeza é um disco que tem minha assinatura, minha marca, mas é um pouco diferente dos outros, no sentido da produção musical e dos arranjos”, afirma. De acordo com o compositor, o período atual no Brasil requer “provocação” e produção de questionamentos a respeito de diversas áreas.

Entre os temas abordados no novo álbum, retratados já na ilustração de capa, estão a questão dos indígenas, das discussões de gênero, além da experiência da mulher e dos negros. “São pessoas que lutam muito por uma vida melhor e, nesse momento em que ‘forças esquisitas’ estão aparecendo, é preciso lutar e se posicionar contra a arrogância suprema de querer determinar certas regras que prejudicam muito as pessoas”.

A relação de Marcelinho da Lua com a França tem longa data. Ele, inclusive, participou do festival Trans Musicales, um dos mais importantes da cena francesa e responsável por trazer pela primeira vez ao país grandes nomes Björk, Lenny Kravitz e Nirvana, além de ter alavancado a carreira de Etienne Daho ou Stromae. “Sempre tive a percepção de que a França recebe a cultura de fora de forma profunda. Não é só uma coisa de mercado, comercial.”

Trabalho de equipe

O posicionamento político de “Insolente” não vem somente da parte de Marcelinho da Lua, mas dos inúmeros artistas que contribuíram na criação das músicas. “Muitas pessoas que estão no álbum se posicionaram para combater esse avanço de um ‘extremismo’: Otto, Fernanda Takai, Marcelo D2, todos eles, eu diria”, conta. O trabalho com outros artistas não é novidade para o produtor, que já fez parcerias com Gaby Amarantos, Daniela Mercury ou Lenine.

“Com todas essas pessoas que participaram, João Donato, Mart’nalia, Martinho da Vila, tudo sempre ocorreu de forma muito natural, nasceu de uma conversa. Eu tive a sorte de sempre ter o estúdio perto de mim, nasci e cresci lá dentro. Para mim, ir lá e gravar nunca foi um mistério”, afirma.

Foi dessa forma orgânica que Marcelinho da Lua concebeu o fruto de uma de suas parcerias mais produtivas: a versão de “Cotidiano”, feita com Seu Jorge, que estourou em 2004. “Uma pessoa me sugeriu que a cadência dessa música funcionava com a batida com a qual eu trabalhava na época, que era o ‘drum and bass’. Na hora, para interpretar essa música e dar vida a ela, pensei no Jorge”, diz o DJ.

“A gente queria apresentar de uma forma nova, mas guardando o fundamento, que é o Chico, e a gente chamou seu maestro, Luiz Claudio Ramos, para fazer a harmonia, além do percussionista do Zeca Pagodinho para a base. Então era um beat, um violão e a percussão”. A gravação levou apenas dois “takes”, segundo Marcelinho, e em seguida só foi preciso fazer o trabalho de “corte e costura”, como ele chama.

Música eletrônica e periferia

Marcelinho da Lua comemora o fato de que a música brasileira tem se diversificado e alcançado novos públicos. “Vejo com bons olhos o fato de que aquilo que a gente fazia em 1997 ou 1998 hoje tem sido bem produzido, às vezes até melhor”, ressalta. Ele lembra que as raízes da música eletrônica brasileira estão nas periferias. “A vanguarda veio das favelas, através do funk, foi lá que eles pegaram o folclore brasileiro, coisas rudimentares da nossa música, e misturaram com o novo.”

Para o DJ, a música eletrônica brasileira “é mais popular do que se imagina”. “Temos o ‘Pagodão’, na Bahia, tem o forró eletrônico no Ceará, enfim, a música eletrônica é muito presente no Brasil. Temos muitas vertentes e toda hora ela se renova”. Marcelinho da Lua ressaltou que, nos Estados Unidos, estilos de música parecidos também nasceram em comunidades periféricas. “São pessoas que sofrem no cotidiano, pelas condições sociais, mas brilham muito, são coloridas, inventivas, criativas, é uma coisa muito rica.”

Veja a entrevista completa:

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